ReproduçãoPaul e Linda McCartney: ele extrai poesia da voz da mulher e lança disco com antigas gravaçõesEm que tipo de mundo de faz-de-conta vivia Linda McCartney? Essa é a pergunta que nos fustiga quando ouvimos ‘‘Wide Prairie’’, o disco póstumo que Paul McCartney gravou para homenagear sua mulher, morta em abril.
Milionária, fotógrafa talentosa, casada com um dos sujeitos mais influentes da história do pop, ela viveu até o fim brincando de criadora de cavalos de raça em seu rancho em Sussex, Inglaterra. Adquiriu veleidades musicais a partir do momento em que Paul lhe ensinou a fazer arranjos e a compor ao piano, mas pouco revelou disso publicamente.
Um fã ouviu uma dessas raras gravações de Linda, ‘‘Seaside Woman’’, se quedou maravilhado e escreveu perguntando ao casal se eles não tinham mais faixas como aquela disponíveis. Segundo Paul McCartney, foi esse interesse que o impeliu a reunir as gravações e a lançar um disco da antiga companheira - ele disse que, após o casamento, só dormiu uma vez longe dela.
A voz de fada boa de filmes da Disney encobre uma disposição incomum de decifrar um importante veio da canção popular americana do fim do século passado. A maior parte dos temas - mais intensamente a faixa-título e ‘‘New Orleans’’ - estão embebidas dessa obsessão pelo folclore americano.
O talento de produtor de Paul McCartney - talvez o mais talentoso músico pop de todos os tempos - começa a aparecer em ‘‘Loves Full Glory’’. Ele traz Linda de volta à realidade e extrai poesia pura de sua voz de ninfa. O rock ‘‘I Got Up’’ é puro Beatles, mas aí Linda não consegue muita coisa - seu vocal está mais para backing do para o frontline.
O country ‘‘The Light Comes from Within’’ é dispensável, quase não a escutamos cantar e uma guitarrinha tenta segurar a onda sozinha, mas não chega longe. ‘‘Mister Sandman’’ é um reggae, o que bastaria para completar o caldo esquizofrênico. Mas há um detalhe: a produção é de Lee Perry, o velho Lee ‘‘Scratch’’ Perry, mais importante exilado jamaicano na ilha da rainha, um gênio do ritmo.
‘‘Seaside Woman’’, a faixa que motivou todo o projeto, vem a seguir. Nada de mais, apenas uma brincadeira caribenha da fotógrafa-cantora. ‘‘Oriental Nightfish’’ é a melhor coisa do disco e significa ao menos uma leitura original da influência original. A guitarra é zappiana, grande pedida. Linda não canta, apenas declama os versos por cima.
Depois vem Paul McCartney de novo, em ‘‘Endless Days’’. Imagino como não seria com ele próprio cantando - mais uma pérola do compositor. A clássica ‘‘Poison Ivy’’ não é para ser séria, mas também não chega a ser divertida com Linda. A versão nacional fez melhor (Lembram? Venenooosa, Erva Venenoooosa/É pior do que cobra cascavel/Seu destino é cruel).
Seguem-se mais algumas faixas folclóricas, até que o CD deságua em ‘‘Appaloosa’’, celebração da grande paixão da artista pelos cavalos.
Todos nos sentimos solidários com a dor de Paul McCartney, que desabou após a morte da mulher. O disco vale como a tentativa desesperada de um homem de resgatar uma imagem de algum recanto da alma. Mas é um apenas isso. Nada mais.

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