Wilmar Klein
Arquivo FolhaPaulo Leminski: poeta com momentos de fulgorDizem que os paranaenses somos autofágicos - e quem o diz são os próprios paranaenses. Porém, em igual medida, somos um bando de puxa-sacos provincianos. A aparente contradição facilmente se resolve com o uso de dois pesos e duas medidas (e, se eu fosse um sujeito religioso, diria que isso é algo abominável aos olhos de Deus). Para dissimular a mediocridade pessoal, tanto vale incensar quanto espinafrar a alheia. No primeiro caso, cria-se o compromisso da retribuição dos elogios rasgados e imerecidos ou, pelo menos, a cumplicidade do silêncio que substitui, por covardia ou interesse, a crítica desfavorável. No segundo, quem critica vende a imagem de superioridade em relação àquele que é criticado. Em ambos os casos, um medíocre sempre dá um jeito de promover-se à custa de outro medíocre. E acrescente-se: é quase só isso o que se vê no cenário da cultura paranaense (se é que existe tal coisa nas esferas do pensamento e das artes).
Como sei muito bem com quem estou lidando (e nem é preciso ser muito inteligente ou perspicaz para sabê-lo), julguei necessárias - ainda que sejam óbvias - as colocações feitas no parágrafo anterior, pois servem como preâmbulo e pano de fundo para o que a seguir afirmo: a supervalorização da obra de Paulo Leminski - morto há dez anos - vale como um atestado da indigência cultural paranaense.
Ao afirmar isso, não pretendo, de modo algum, negar os méritos que Leminski teve como poeta, prosador, tradutor, etc., e sim dizer que esses méritos não foram tantos e tamanhos quanto se pretende fazer crer. Quando ouço dizer que Leminski ‘‘deixou um vácuo imenso na vida cultural brasileira’’, tenho a impressão de que estão falando de alguém como o Manuel Bandeira, o Carlos Drummond de Andrade, o Guimarães Rosa ou o Machado de Assis. Com a ressalva de que também estes não deixaram nenhum vácuo na ‘‘vida cultural brasileira’’, até porque a ‘‘vida cultural brasileira’’ já é o próprio vazio. Nela, Bandeira, Drummond, Rosa, Machado foram milagres, e não consequência.
Quanto ao Leminski - com quem mantive as relações mais cordiais e sinceras, especialmente nas ocasiões em que bebemos juntos -, não foi nem uma coisa nem outra: foi, isto sim, poeta com alguns momentos de fulgor (pelos quais merece ser lembrado) e muitos de relaxo e auto-indulgência. Nos piores, foi mero trocadilhista - e isso, hoje em dia, lhe confere o ‘‘status’’ de poeta afinado com a vanguarda de seu tempo e coisas quetais. Estava cheio de razão o Décio Pignatari quando disse (Folha de segunda-feira) que Leminski sucumbiu à ‘‘praga’’ do haicai. Não menos válido foi o seu desabafo: ‘‘Não aguento mais tanta gente fazendo poemas ‘leminskianos’.’’ Décio (que, suponho, já deve estar farto do assédio dos puxa-sacos curitibanos) recomenda um trabalho mais sério: uma edição crítica do ‘‘Catatau’’ (romance experimental que o Leminski publicou em 1975, em edição de autor). O problema é que, além do Décio Pignatari, não sei de mais ninguém que tenha lido o ‘‘Catatau’’ inteiro.
Que não me entendam mal: também sinto saudades do Leminski, e posso afirmar que, se eu fosse poeta, escreveria poemas bem piores do que aqueles que ele jogou no lixo (aliás, esse fato às vezes me deixa motivado a tentar a sorte na poesia ...). Mas não é por isso que vou babar na cova do poeta. E, se me entenderam bem, o ‘‘pau’’ nem é tanto no Leminski...
P.S.: Se alguém sentir vontade de me esculhambar por causa do texto acima ... bem, este é um direito democrático (dizem). Então vai aqui o meu e-mail: [email protected]

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