O trabalho de Patti Smith volta a ganhar atenção graças a um livro de fotografias organizado por Michael Stipe. O líder do R.E.M. acaba de lançar ‘‘Two Times Intro: On the Road with Patti Smith’’, uma coleção de imagens da última turnê da musa punk dos anos 70, que ele diz ser uma de suas principais influências. Com textos de William Burroughs, Thurston Moore e Kim Gordon, entre outros, o trabalho homenageia a artista 20 anos depois de seu mais bem-sucedido álbum, ‘‘Easter’’.
Stipe se diz fã de Smith desde 1975, quando tinha 15 anos e estava na escola. Ela acabava de lançar seu primeiro disco, ‘‘Horses’’, depois de se dedicar à poesia, à pintura e ao teatro (ela escreveu ‘‘Cowboy Mouth’’, em parceria com Sam Shepard). O cantor conta na introdução do livro que descobriu a existência de Smith lendo uma reportagem na revista ‘‘Creem’’, em que ela aparecia como o principal nome da cena punk nova-iorquina que começava a se desenvolver ao redor do lendário clube CBGB - de onde saíram também o Television, o Ramones, o The B-52‘s e o Blondie.
No fim de 1996, depois que os dois já haviam se conhecido pessoalmente por conta de amigos em comum, Smith foi convidada para abrir a turnê norte-americana de Bob Dylan. A cantora não se apresentava com uma banda ao vivo havia 20 anos e resolveu aceitar. ‘‘Acabei entrando na história quase por acaso’’, diz Stipe. ‘‘Ela me convidou para assistir a algumas das apresentações e quando vi estava no ônibus.’’ O músico levou suas câmeras fotográficas e, ao lado do guitarrista da banda, Oliver Ray, fez um diário de toda a viagem.
O que se vê em ‘‘Two Times Intro’’ são imagens em preto-e-branco dos bastidores e dos shows da enigmática artista, em imagens que não são estonteantes, mas que retratam bem a intimidade da turnê. Boa parte das imagens traz apenas detalhes ou está fora de foco, mas consegue resgatar o espírito da série de shows. Aos 52 anos e com uma carreira que foi interrompida algumas vezes por vários anos, Smith ainda traz fortes marcas do espírito punk que influenciou bandas como R.E.M., Sonic Youth e Beastie Boys. Para Thurston Moore, do Sonic Youth, ela foi a inspiração ‘‘mais forte, mitológica e parecida com um alien’’ de toda a carreira dele.
Já nas palavras de Burroughs, que se tornou amigo de Smith e de Stipe e também acompanhou parte da turnê, ela não é uma artista, é ‘‘um xamã que tem conexões com outros níveis’’. ‘‘Seu efeito no público é elétrico, similar aos de rituais de vodu e umbanda, onde as pessoas se tornam participantes e são literalmente levantadas de si mesmas.’’
Entre os discos ‘‘Horses’’, de 1975, e ‘‘Peace and Noise’’, de 1997, Smith teve uma trajetória que já despertaria curiosidade mesmo se ela não tivesse influenciado tantos artistas. O primeiro álbum, produzido por John Cale, chamou atenção por trazer uma mistura inédita de poesia, rock tocado de maneira rudimentar e maneirismos vocais inspirados em Mick Jagger e Jim Morrison. No ano seguinte, foi a vez de ‘‘Radio Ethiopia’’, feito em parceria com o produtor do Aerosmith, Jack Douglas, e bem mais pesado do que o anterior.
Logo depois, Smith sofreu uma queda do palco durante um show na Flórida e quebrou o pescoço, tendo de passar meses no hospital. Do período de recuperação surgiu o livro de poesias ‘‘Babel’’ e as canções para o que seria seu mais bem-sucedido álbum, ‘‘Easter’’, lançado em 1978. O disco trazia o hit ‘‘Because the Night’’, escrito em parceria com Bruce Springsteen, que chegou ao 13º lugar da parada norte-americana.
‘‘Wave’’, lançado em 1979, marcou o início de um longo recesso do rock: o disco já trazia uma forte influência religiosa e deu início a um período de reclusão em que ela se dedicou ao marido, o guitarrista Fred ‘‘Sonic’’ Smith, e seus dois filhos. Quase dez anos depois chegou ao mercado seu quinto álbum, ‘‘Dream of Life’’, que teve a participação de Fred e de alguns músicos da banda original da cantora.
Sua primeira aparição no palco aconteceu apenas em 1993, em um festival de verão no Central Park, em Nova York. Smith leu algumas de suas poesias e cantou a capella para homenagear dois de seus amigos mortos, o fotógrafo Robert Mapplethorpe e o pianista Richard Stohl - o primeiro parceiro dela. Seguiram-se o lançamento de uma compilação de poesias (‘‘Early Work: 1970-1979’’) e, no ano passado, o disco ‘‘Peace and Noise’’, o qual Smith promoveu com uma apresentação histórica no CBGB.

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