PATRIOTISMO DE OCASIÃO
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quarta-feira, 02 de agosto de 2000
André Bernardo TV Press 
Do alto de 41 anos de idade e 20 de profissão, Edson Celulari sabe o quanto é difícil conseguir bons papéis. Por isso mesmo, não titubeou em aceitar o convite do diretor Jayme Monjardim para interpretar o Capitão Hélio da macrossérie Aquarela do Brasil, prevista para estrear em agosto na Globo. Recém-saído da novela Vila Madalena, ele já estava de malas prontas para o Oriente, onde pretendia curtir férias ao lado da mulher, Cláudia Raia. No entanto, adiou o projeto só para homenagear o pai, um militar reformado. Quando criança, Edson adorava ouvir as histórias contadas por Seu Edno sobre o dia-a-dia em um quartel do Exército. Cheguei a pensar em seguir carreira militar, mas não fiz nem o Serviço Militar Obrigatório porque estava cursando a faculdade de Teatro quando completei 18 anos, lembra.
Mais de 20 anos depois, Edson está tendo a oportunidade de conhecer de perto o dia-a-dia de um quartel. As primeiras cenas de Aquarela do Brasil foram gravadas numa unidade militar desativada da cidade de São João do Barreiro, no interior de São Paulo. Lá, o ator teve de se acostumar com a farda pesada mesmo nos dias mais ensolarados. Além disso, o coturno bota de sola grossa e alta obriga o ator a andar com passos curtos. Bem-humorado, Edson diz que tal sacrifício contribui para tornar as cenas da minissérie mais verossímeis. Eu me divirto muito fazendo o que faço, resigna-se. Nada, porém, é mais difícil do que se imbuir do sentimento patriótico, uma das características mais fortes do personagem. Patriotismo para mim se resume a cantar o Hino Nacional em dias de jogo da seleção, reconhece.
Para se familiarizar com o sentimento que norteia boa parte das atitudes do valoroso Capitão Hélio, Edson Celulari passou a se inteirar mais dos motivos que obrigaram Getúlio Vargas a declarar guerra ao Eixo Berlim-Roma-Tóquio na Segunda Grande Guerra. Entre livros e workshops, o ator descobriu que a aliança foi firmada após a destruição de 35 navios mercantes e de guerra da Marinha Brasileira na época, a Alemanha foi responsalibizada, mas hoje acredita-se que foram os próprios Estados Unidos que afundaram os navios. Em pouco tempo, uma tropa de 25 mil pracinhas foi destacada para lutar no fronte.
Segundo o ator, Aquarela do Brasil conta a história de um homem ético, justo e honrado, que é convocado para defender a pátria durante a guerra. Hélio representa valores escassos nos dias de hoje. Não só em termos militares, mas de maneira geral, enfatiza. Mas Edson Celulari admite que não aceitou o convite de Jayme Monjardim apenas por razões afetivas. O fato de ser uma produção de época e de nunca ter trabalhado com o diretor de Terra Nostra também pesaram. Além disso, ele não disfarça a preferência por atuar em minisséries.
Das muitas minisséries que participou, cita Decadência e Dona Flor e Seus Dois Maridos, ambas escritas por Dias Gomes, como as favoritas. Quando faço minissérie, tenho dois capítulos a menos por semana para gravar. Isso faz com que capriche mais na composição do personagem, esclarece. Como se não bastasse, estas produções dão oportunidade de os atores gravarem in loco e, por consequência, de entrarem mais facilmente no clima da história. Na época de Dona Flor, por exemplo, Edson adorou gravar em Salvador, na Bahia, no cenário original do romance de Jorge Amado. Lá, eu me sentia o próprio baiano vestido de Filho de Gandhi, brinca.
Apesar de todo o enfoque histórico do seu mais novo trabalho que inclui perseguição aos judeus e os anos de ouro da Rádio Nacional , Edson lembra que o mote principal de Aquarela do Brasil é a história de amor vivida por Hélio e Isa Galvão, uma cantora de rádio interpretada por Maria Fernanda Cândido. Quando o Brasil ingressa na Segunda Guerra, Hélio e Isa se alistam como voluntários: ele como capitão do Exército e ela como enfermeira. Logo, Hélio vai ter de disputar o coração da moça com Mário Reis, um jovem pianista vivido por Thiago Lacerda. Edson elogia o desempenho dos novos colegas de trabalho. Para ele, não é todo mundo que resiste às pressões impostas pela fama repentina. Muitos, inclusive, se mostram incapazes de manter a cabeça no lugar. Os dois são estudiosos e concentrados. Se tiverem cabeça, vão longe, torce.


