Patrimônios culturais à própria sorte
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domingo, 27 de dezembro de 2015
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
A semana começou com a triste notícia de que um incêndio de grandes proporções devastou o Museu da Língua Portuguesa (MLP), na Praça da Luz, região central de São Paulo. O teto do museu ficou totalmente destruído e o fogo chegou à torre do relógio. O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil dizem que um curto-circuito durante uma troca de lâmpadas pode ter causado o incêndio, mas o laudo oficial só deve ser divulgado nas próximas semanas. Todo o acervo é digital e, portanto, conta com uma cópia de segurança. Apesar disso, a estrutura física foi perdida. Ainda não há estimativas do prejuízo.
O museu e todo o complexo da estação não tinham aval dos bombeiros para funcionar. Segundo a corporação, os responsáveis pelo museu apresentaram projeto em 2004, que foi aprovado, mas não deram prosseguimento ao pedido. A apresentação é só a primeira fase de um processo para obtenção do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). O segundo passo é um pedido de visita dos bombeiros para análise das edificações.
Qualquer semelhança do incêndio do MLP com o fatídico dia 12 de fevereiro de 2012, quando o Teatro Ouro Verde, em Londrina, foi tomado pelas chamas, não pode ser considerado mera coincidência. A tragédia levou parte da história da cidade junto com as labaredas. À época, houve uma grande repercussão sobre o fato de o local ter passado por vistoria apenas quatro anos antes pelo Corpo de Bombeiros e que o certificado de vistoria não estaria regularizado. Depois de uma grande mobilização, o Governo do Estado anunciou que o teatro seria reerguido. O espaço passa por reforma desde janeiro de 2014 e deveria ter ficado pronto em julho de 2015. Mas, por atraso nos pagamentos, teve as obras suspensas por um período e um novo cronograma será definido em janeiro.
Apesar de o MLP ser relativamente novo, tendo sido inaugurado em 2006, estava localizado nas instalações da Estação da Luz, patrimônio histórico de São Paulo erguido 148 anos atrás. O complexo da Estação da Luz é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Este instrumento de reconhecimento, no entanto, não foi o suficiente para evitar que o incidente acontecesse. E isso tem sido recorrente, tanto em obras tombadas quanto em outras obras de interesse social que não possuem a tal "proteção". O documento, definitivamente, não traz garantias de manutenção do bem.
Em Londrina, existem quatro bens tombados pela Coordenação do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura (Seec): Praça Rocha Pombo, Museu de Artes de Londrina (antiga Rodoviária), Palacete da Família Garcia (na Avenida Higienópolis, onde funciona atualmente uma agência bancária) e Teatro Ouro Verde. Quase todos encontram-se em situação inadequada de manutenção. Assim como esses, existem outros em situação complicada, como Museu Histórico de Londrina e Teatro Zaqueu de Melo, colocando em risco, na maioria das vezes, a estrutura em si, bem como acervos culturais e históricos da cidade que necessitam de um acondicionamento adequado e outros mecanismos para sua preservação.
O fato é que obras públicas no Brasil, em geral, não possuem recurso fixo previsto em orçamento para manutenção, reparos ou reformas. Caso um incidente aconteça como incêndio, enchente, destelhamento ou até mesmo necessidade de pequenas intervenções estruturais o espaço fica à mercê de emendas públicas, ações de emergência e doações, enquanto a deterioração do local, sobretudo do acervo, é inevitável. Na prática, o tombamento acaba sendo apenas um instrumento para que a obra não seja descaracterizada caso passe por alguma intervenção, tendo que ser mantido o projeto arquitetônico original. Quando não possui, o 'descaso' é ainda maior. (Com Folhapress)


