Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Em tempos de orçamentos enxutos ou inexistentes, são raros os investimentos na preservação da memória musical brasileira. Nadando contra a corrente, o Pará surge como incentivador por intermédio da Secretaria Estadual de Cultura – Secult. Três CDs acabam de sair do forno registrando desde as composições de Marcos Quintino Drago até obras instrumentais para piano a quatro mãos.
Pouco conhecido, Drago tem uma obra variada, submersa na cultura popular. Lançado pelo Projeto Uirapuru, o disco ‘‘Marcos Quintino Drago’’ reúne 14 músicas que vão da valsa ao choro, passando pelo bumba-meu-boi. O compositor nasceu na Ilha de Marajó, estudou música na infância e foi professor de teoria musical. O violonista Sebastião Tapajós esteve entre seus alunos.
O repertório remete ao período de estruturação da música popular brasileira, da virada para o começo do século. Muitas composições, como a valsa ‘‘Sublime Amor’’, são da década de 20. A carreira de Drago se estende por gerações. Existem músicas dos anos 90 e, aos cem anos de idade, ele continua compondo.
A variedade do CD pode desconcertar o ouvinte. De uma valsa melódica e orquestral, o repertório passa para um choro cantado, podendo caminhar para arranjos eruditos, composições para bandas marciais ou ladainhas populares. Um trabalho versátil e original. Vale destacar também o cuidado do encarte, que além de textos explicativos e fotos, cita ainda os intérpretes e arranjadores de cada faixa.
Em comemoração aos 30 anos da morte de Che Guevara, a Secult/Pará promoveu um concerto em outubro de 1997 reunindo a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, com participação de coros, percussionistas e sambistas. Este material foi lançado no álbum ‘‘Trazendo-Che no Coração’’.
O disco tem passagens interessantes, como o instrumental ‘‘Prelúdio para Che’’ (Paulo André Barata) e ‘‘Adiós Argentina’’ (Paulo André Barata/Afredo Oliveira/Paulo Chaves). Parte das faixas se aproxima de canções revolucionárias latino-americanas. No entanto, a homenagem acumula doses exaltadas de messianismo e o bom instrumental não é suficiente para conter os exageros.
Além de Marcos Drago, outro destaque dos lançamentos é ‘‘Piano a Quatro Mãos’’, interpretado por Lúcia Azevedo Lisboa e Luiza Camargo, com participação especial de Doris Azevedo. O Pará tem tradição em música instrumental e esta coletânea de obras compostas para piano a quatro mãos é daquelas que descansam e alimentam o ouvido.
Entre os compositores escolhidos estão os franceses Bizet, Debussy e Fauré. Há um destaque para os brasileiros Almeida Prado, Aylton Escobar, a própria Luiza Camargo e Francisco Mignone. A segunda parte traz obras do russo Rachmaninoff.
‘‘Piano a Quatro Mãos’’ é um álbum duplo que traz, no primeiro disco, um intercâmbio entre compositores franceses e brasileiros. Entre os nacionais, estão o santista Almeida Prado, que traz referências folclóricas discretas em ‘‘IV Peças para Piano a Quatro Mãos’’. Aylton Escobar imprime sotaque carioca do início do século em ‘‘Seresta’’, composta em 1970. A intérprete Luiza Camargo aparece como autora em ‘‘Brasileirando’’, obra apoiada em nacionalismo pouco evidente, com colorações cotidianas e um tempero sutilmente popular.
Francisco Mignone, compositor consagrado, aparece com o consistente ‘‘No Fundo do Meu Quintal’’, melodia que remonta à infância do autor em fraseados alegres. ‘‘Congada’’, também de Mignone, é uma composição mais profunda, com arquitetura melódica complexa, ressaltada no uso mais constante de notas graves.
Os discos lançados pela Secult podem ser encomendados pelo telefone (91) 241-2333, ramal 134. O CD simples sai por R$ 15,00 – o duplo sobe para R$ 30,00. O valor não inclui despesas de envio.

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