Patrimônio recuperado
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sábado, 31 de julho de 2010
Adriana Ito<BR>Reportagem Local 
Talvez por ser uma cidade relativamente jovem, Londrina até hoje não se preocupou muito em preservar seu patrimônio arquitetônico. Não fossem as obras de João Batista Vilanova Artigas - o teatro Ouro Verde, a antiga rodoviária e o edifício Autolon, só para citar os mais conhecidos -, a cidade hoje teria ainda menos resquícios de suas construções históricas.
Mas, se as construções de Artigas continuam com as características originais, é porque foram mantidas, e não necessariamente preservadas. O Ouro Verde passou por uma reforma de R$ 6 milhões e ficou com mal-cheiro, goteira no palco, cadeiras quebradas e bastidores que deixam a desejar.
A rodoviária virou Museu de Arte sem que para isso fosse renovada a sua parte elétrica e hidráulica, deficiências que precisam ser sanadas urgentemente.
E a Casa da Criança? Esta foi pensada de um jeito, construída de outro, ampliada aqui, alterada ali, e virou esse Frankestein, criado para ser creche, que virou biblioteca e depois sede da Secretaria Municipal de Cultura.
Ao menos, esta construção inaugurada em 1955 está mais próxima de ter suas características originais restauradas - e renovadas. Começa amanhã a reforma do prédio que, de tanta maquiagem, chegou a não ser mais reconhecido por seu criador. A proposta é recuperar a ideia original, fazendo as pazes, mesmo que postumamente, com Artigas. ''Vamos mudar o revestimento de pastilhas e retirar os anexos construídos ao longo dos anos. Perdemos o segundo andar, o solarium volta a ser solarium, e os jardins ficarão integrados'', adianta o secretário de Cultura, Leonardo Ramos.
Com recursos de R$ 1 milhão provenientes da Caixa Econômica Federal e mais um pouco do município, a Secretaria de Cultura vai inserir apenas uma alteração, colocando um elevador de acessibilidade - o que com certeza Artigas perdoaria.
Mas o arquiteto vai precisar se conformar com o restauro da construção original, ainda que a obra não tenha sido executada exatamente do jeito que ele idealizou. ''Foi feito um projeto quase arqueológico, de buscar os primeiros projetos dele, as primeiras ideias. E o escritório de arquitetura encontrou discrepâncias entre os desenhos originais e aquilo que está nas fotos da inauguração'', revela Ramos.
Um exemplo citado pelo secretário é que as esquadrias do térreo não têm a mesma simetria do desenho inicial. ''Quando descobriram isso, as arquitetas tentaram fazer uma adaptação, mas se convenceram de que não dava e voltaram atrás. Nisso, os computadores travaram, e quase todo o projeto foi perdido. Elas falam que isso foi interferência do Artigas, que queria que elas fizessem o que estava na cabeça dele. Mas vão restaurar aquilo que foi inaugurado'', insiste Ramos. Confira a entrevista que o secretário concedeu à FOLHA.
O atual espaço vai ser reduzido em quanto?
Em termos de área construída, a gente perde uns 30%. Mas eu acho que vale a pena, porque pela primeira vez teremos a possibilidade de fazer um resgate histórico da cidade e preservar aquilo para as futuras gerações, como algo de uma década importante da cidade, em que a riqueza era muito grande - imagine construir uma creche com aquele requinte.
É uma mudança de conceito na utilização do prédio?
É. A própria sala José Antônio Teodoro não estava mais em condição de receber nenhuma exposição, em uma situação de total estrago. Voltaremos a ter uma sala em boas condições. Você vai ter ainda um pequeno auditório, para várias situações, como pequenos concertos e atividades do próprio conselho de cultura. Os jardins estarão integrados, então você vai ter lançamento de livros, CDs, novamente pequenas apresentações musicais, vai ser uma área de convivência cultural. O que era só um prédio administrativo passa a ser um centro de convivência cultural mesmo.
Quando foi anunciada a reforma, em 2008, cogitou-se a possibilidade de mudar a Biblioteca Infantil para lá. Vai ser mesmo possível?
Não tem condição. Primeiro porque é muito importante a integração das duas unidades, isso na visão de especialistas que trabalham na área. O que vamos fazer é retirar o processamento técnico dos livros de lá. Isso vai abrir um espaço grande para ampliar a Biblioteca Infantil.
Também estão reformando a Escola de Dança, que vai passar a abrigar a Escola de Teatro. Estão arrumando a casa?
Nós temos um brilhante processo de política pública de cultura, mas com infraestrutura extremamente precária. A cidade não conta com um teatro adequado para receber os grandes espetáculos, a Secretaria de Cultura estava em estado deplorável, o Museu de Arte é outro prédio histórico em péssimas condições, temos uma biblioteca sucateada em todos os aspectos possíveis. Então estamos trabalhando em um projeto de infraestrutura que envolve desde os equipamentos até a forma de acesso, como no caso da modernização da biblioteca. A gente espera entregar um sistema municipal de bibliotecas, que integre nossas quatro unidades e as 82 da rede de educação.
E com a casa arrumada, qual será o próximo desafio?
O grande desafio de qualquer administração é basicamente ter a cultura como um bem cotidiano do cidadão. As pessoas terem acesso a isso como têm acesso à saúde, educação, asfalto - isso faz parte do processo de qualidade de vida, garantido inclusive pela Constituição brasileira. Os próximos passos depois da infraestrutura creio que não serão mais responsabildiade minha, mas acho que é o processo de continuidade, de constituição dessa política pública de cultura, que vem sendo feito com muito brilho desde a criação da secretaria, em 1992. A gente espera comemorar o aniversário de 20 anos, em 2012, com esse marco: boa infraestrutura, os equipamentos culturais em bom estado.


