Patrimônio preservado
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Ana Paula Nascimento <br>Reportagem Local 
Todo teatro parece ter um ar de mistério. Misturando magia e jogo de luz, somos levados de forma desapercebida a um estado de epifania, onde um momento dedicado à arte pode mudar uma vida, ou uma visão de mundo.
As artes de modo geral agem na sutileza, falam a linguagem do coração e deixam marcas indeléveis que carregamos pela nossa existência.
Um teatro de quase 60 anos merece todo nosso respeito e é em seu ambiente que nesse tempo todo milhares de pessoas tiveram a oportunidade de se encantar com um belo espetáculo teatral, os acordes afinados de uma orquestra ou mesmo se emocionar com um discurso de formatura.
Ah! E ter formatura no Teatro Ouro Verde sempre teve algo mais que especial. Subir naquele palco, não sendo artista, era algo raro, desejado e sonhado.
E os sonhos? Do que são feitos os sonhos? De que material etéreo eles são feitos? Da imaginação humana, da criatividade, da inventividade? Nada menos do que os elementos que podíamos presenciar cotidianamente no Teatro Ouro Verde.
Agora, mesmo as pessoas que não tinham o hábito de frequentar o teatro lamentam. Em cada esquina ainda se ouve comentários sobre o incêndio do teatro, relatos dos que choraram e esperam por providências.
Parece que de repente passamos a sofrer de um sentimento de orfandade, como uma espécie de perda repentina de um ente querido que até podíamos não visitar sempre, mas sabíamos que estava ali, exatamente naquele ponto, naquele endereço exato.
Para aqueles que conheceram aquele espaço público, usufruindo e vivenciando cada pedacinho da sua parte na história, a sensação de perda parece ainda maior, mas, por outro lado - se há algum consolo - têm registrado na própria memória momentos marcantes daquele lugar tão especial.
Tem a menina pré-adolescente que fez sua primeira apresentação de jazz no Ouro Verde, a pipoqueira e o seu filho que sempre estavam na saída dos espetáculos vendendo sua pipoca quentinha, e os mais antigos devem lembrar que quando iam ao Ouro Verde, ainda apenas funcionando como cinema, tarde da noite, recebiam lamparinas para poderem voltar para suas casas em segurança após a sessão cinematográfica.
Um mundo de emoções parece não caber naquele lugar, mas cabe no coração, na memória afetiva de cada um.
O cheiro de fumaça ainda parece recente, a imagem das labaredas saindo pelas janelas da fachada imponente persiste, mas não deixemos que a tragédia encerre de forma definitiva a história desse patrimônio cultural tão importante.
Não aceitemos o que aconteceu como uma cena final de um espetáculo, quando as cortinas se fecham, ecoando apenas os aplausos.
Não, o Ouro Verde está vivo na nossa memória. As cortinas precisam ser reabertas, a atual e futura gerações merecem.


