Conheci mais de perto o jornalista Estélio Feldman no início de 1964, logo depois que eclodiu a ditadura militar e quando, por coincidência, eu assumia a direção de Redação da Folha de Londrina. Minha posse no cargo se deveu à saída do antigo diretor, Nilson Rímoli, um mestre repleto de seriedade profissional e que deu a diretriz editorial que viria a ser seguida até os dias de hoje pelo jornal.
Mas é de Estélio que falo, porque era ele a quem eu consultava nos nomentos de dúvida, e ele tinha um sexto sentido que alertava sobre a conveniência de se escrever isto ou aquilo. Ambos jovens, e com alguns arroubos, tínhamos nas mãos a Folha, porque João Milanez, o dono e diretor-presidente, viajava muito para o Rio e São Paulo, em busca de anúncios junto às grandes agências de propaganda, e nem sempre contávamos com a presença dele.
Lembro-me que a Folha era um jornal de feio aspecto gráfico, muitas falhas de impressão e fotografias quase inidentificáveis. A primeira página, até então, só ostentava notícias internacionais, porque assim faziam o jornal O Estado de S.Paulo e a então Folha da Manhã, hoje Folha de S. Paulo, e isso era ''in''. A primeira coisa que fizemos foi mudar isso.
A página de capa, então, passou a dar importância às notícias locais, regionais e por extensão paranaenses. O leitor aprovou e passou a aceitar mais o jornal. As pessoas vinham à Redação para dizer isso, porque a população era pequena e os leitores e assinantes, naturalmente, não eram muitos. Porém, todos os que liam a Folha eram pessoas importantes e com poder de decisão.
Eram tempos de ditadura, e se havia um entusiasmo profissional de parte dos dois meninos (eu e Estélio) e do restante dos jornalistas que a Folha tinha e que se podia contar pelos dedos das mãos , havia a proibição dos censores, que passaram a marcar presença na Redação. Trabalhávamos sob o regime do medo. Ouvia-se histórias horripilantes sobre o que faziam com os presos políticos, e os jornalistas eram muito visados.
Como eu era o diretor de Redação de fato, era chamado a dar explicações aos organismos da Segurança Nacional, principalmente à Polícia Federal. Foram quase 20 anos assim. Fiquei 27 anos na função, e Estélio sempre próximo. Ele, depois, passou a escrever o Editorial da Folha, que na época se denominava o artigo de fundo. Muitas coisas aconteceram a partir daí. Estélio, filho de judeus, sofreu por essa condição, e não por conta do regime e sim pelos pais, que não permitiam o namoro dele com uma não-judia.
Foram dias amargos para ele, porque o pai afastou-o de casa ante a resistência de Estélio, apaixonado que estava pela namorada com quem mais tarde se casaria e teria filhos. Ele ficou na rua, sem saber onde dormir, e sem dinheiro. Um caso raro de judeu sem dinheiro. Foi então que eu, o jornalista Oswaldo Militão até hoje na Folha e meu irmão Walter resolvemos ajeitar um espaço para ele em nosso quarto de pensão. Era na rua Duque de Caxias, em cujo andar térreo do prédio de dois andares havia uma loja com o nome de Casa Popular. Quando alguém pedia nosso endereço, Militão dizia que morávamos na Casa Popular.
Eram tempos em que se passava fome, porque o jornal não tinha dinheiro e os salários vinham pingados. Repartíamos o pão, os sapatos, as calças, as camisas e as cuecas. Confiávamos no fiado dos bares vizinhos de nossa morada. Que às vezes nos apontavam para a placa do ''fiado só amanhã''... Talvez por isso tenhamos aprendido a valorizar a comida e a não desperdiçá-la, mesmo nos anos que se seguiram e que foram de mais fartura.
Quando me perguntavam, no correr dos anos, com quem eu nunca brigaria de forma alguma, eu respondia que com João Milanez, Oswaldo Militão e Estélio Feldman. E, de fato, com eles eu nunca briguei. Até porque não foi preciso. Ou, se motivos houve, nenhum de nós percebeu.

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