Para um leigo desinformado, seria só uma pilha de papel inútil à espera das traças. Os documentos reunidos no Plano Diretor de Preservação do Patrimônio Cultural de Londrina, contudo, constituem fonte inestimável de consulta para políticos, arquitetos, urbanistas, engenheiros e qualquer cidadão preocupado com o futuro da cidade.
O estudo, disponível na Secretaria Municipal de Cultura, reúne 11 volumes apostilados que mapeiam diversos imóveis considerados bens culturais do município. Um deles traz um inventário das fachadas das edificações do Calçadão registrando, quadra por quadra, a história da Avenida Paraná. A pesquisa abrange identificação dos imóveis, desenhos e mapas dos lotes.
O trabalho foi feito ao longo dos dois últimos anos sob coordenação do arquiteto Humberto Yamaki, com participação de Milena Kanashiro, Sidnei Junior, Ricardo Dias Silva e colaboração de Rosane Troia. ''O Calçadão representa um eixo histórico importante de Londrina'' diz Vanda de Moraes, diretora de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura. ''No passado, era o trecho de ligação rodoviária entre Dantizg (atual Cambé) e Nova Jataizinho (onde está hoje Ibiporã). A partir dos anos 70, mudou de figurino tornando-se a principal rua de comércio da cidade''.
Vanda salienta que o inventário levanta a discussão sobre a publicidade presente na paisagem da Avenida Paraná. O tema, segundo ela, já mobiliza alguns projetos na cidade, como a de taxação para quem pratica a poluição visual através de excessos auto-promocionais. ''Os anúncios não só interferem nas fachadas, como deterioram os imóveis. Queremos colaborar nesse debate com o ponto de vista da defesa do Patrimônio Histórico'' diz.
Além do Calçadão, o Plano Diretor reúne informações sobre diversos prédios considerados patrimônio público de Londrina, entre os quais o Museu de Arte, o Museu Histórico, a Biblioteca Pública, o Cadeião, a Capela Divino Espírito (no distrito Espírito Santo, região sul), a Capela São Miguel Arcanjo (no patrimônio Heimtal, região norte), a Capela Santo Antônio (no Patrimônio Selva, região sul) e a própria Secretaria de Cultura.
As fichas dos inventários incluem fotos e plantas antigas e atuais dos imóveis, identificação (localização, data de construção, proprietários, etc), caracterização (uso antigo e atual), estado de conservação, descrição arquitetônica, significância (o que representa para o patrimônio) e mapa de inserção urbana. A pesquisa traz ainda o resultado de um questionário intitulado ''Patrimônio Afetivo e Imaginário'', que avalia a opinião da população sobre os principais bens culturais da cidade.
Pela consulta, há simpatias especiais pelos museus Histórico e de Arte; pelas praças Rocha Pombo e Marechal Floriano Peixoto; pelas avenidas Higienópolis e Paraná; e pela esquina das avenidas Higienópolis e JK, além da Alameda Manoel Ribas com a Avenida Rio de Janeiro. A lista destaca ainda preferências pelos bairros Vila Casoni e Vila Nova (ambos na região central), Catedral de Londrina, Igreja Presbiteriana (Rua Mato Grosso), Lago Igapó, Parque Arthur Thomas, Zerão, Monumento ao Viajante (escultura próxima ao Terminal Rodoviário), Concha Acústica, ''Relojão'' (Papelaria Central) e Universidade Estadual de Londrina.
Vanda lembra que a pesquisa é um grande avanço para sua área de atuação. ''Londrina ainda não foi inventariada. Esse Plano Diretor é o ponto de partida para continuarmos nosso trabalho de preservação dos bens culturais da cidade. Ele reforça a proposta de criação de uma legislação específica de tombamento'' salienta. A diretora do Patrimônio Histórico vê com entusiasmo a atual safra de projetos desenvolvidos no setor, quatro deles recém-aprovados pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
Um, de autoria de Elisa Roberta Zanon, propõe um inventário completo das edificações de interesse histórico do Calçadão. ''Ele vai além da pesquisa que temos em mãos, que trata apenas das fachadas'' observa. Outro projeto, apresentado por Rodrigo Kamimura, visa ao levantamento das edificações recicladas (que receberam novos usos). O terceiro projeto, assinado por Renato Mateus Gorne Viani, tem como objetivo resgatar a obra arquitetônica do engenheiro Américo Sato.
O quarto trabalho, de autoria de Antonio Carlos Zani, prevê a publicação de um livro sobre o repertório arquitetônico das casas de madeira de Londrina. Todos essas contribuições, segundo Vanda, serão integradas ao acervo de pesquisas do setor de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura.

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