Com a próspera Londrina do início da década de 50, edificações modernas eram erguidas e ritmo acelerado. Em menos de dez anos, seis obras do arquiteto curitibano João Batista Vilanova Artigas foram executadas na cidade, marcando e alavancando o início da carreira do artista que, no próximo dia 23, completaria 100 anos.
Se a efeméride do centenário merece comemoração – estima-se que existam mais de 400 projetos em todo Brasil, entre eles o Estádio Morumbi, sede da FAU-USP, da Universidade de São Paulo e a famosa rodoviária de Jaú (SP) – o mesmo não acontece por aqui. Praticamente todas as obras de Artigas (Museu de Arte de Londrina - antiga rodoviária, Teatro Ouro Verde e Edifício Autolon, Casa da Criança, Casa Milton Menezes, ala do Hospital Santa Casa e vestiários do Londrina Country Club) estão descaracterizadas ou em péssimo estado de conservação. Os dois primeiros fazem parte do grupo de quatro patrimônios tombados no município.
Inaugurada em 1952, a antiga rodoviária, agora Museu de Arte, foi restaurada no final da década de 80 e, depois disso, nada mais foi feito no local, que hoje encontra-se em condições precárias com estruturas enferrujadas e risco de queda, além de infiltrações.
O Teatro Ouro Verde, incendiado em 2012, está com obras de reconstrução paradas desde o final do ano passado por falta de repasses do Governo do Estado e sem previsão de término. Parte do anexo do teatro, o Edifício Autolon foi bastante modificado ao longo dos anos por empreendimentos comerciais.
A Casa da Criança, depois de várias adaptações fora do original, passa por um reforma há anos, mas, ao que tudo indica, termina no final deste ano e vai voltar a abrigar a Secretaria Municipal de Cultura.
Os vestiários do Londrina Country Club foram todos modificados. Apenas a Casa Milton Menezes e a ala do Hospital Santa Casa estão perto do original.
Artigas é um dos responsáveis pelas primeiras manifestações modernistas da arquitetura brasileira, e o conjunto de obras executadas em Londrina colocou a cidade em destaque nesse universo. Porém, a situação hoje é crítica e preocupante, na opinião dos especialistas ouvidos pela FOLHA. "Apesar de ser um conjunto de circunstâncias que não têm relação uma com a outra, o resultado é um só: perda de um patrimônio importante para a história da cidade e da arquitetura do país. De certa forma, Artigas foi o responsável pelo processo de modernização da paisagem de Londrina. Espero que a data seja um momento de chamarmos a atenção para a necessidade de restauração dessas obras", desabafa a arquiteta Juliana Suzuki, doutora em História da Arquitetura e autora do livro "Artigas e Cascaldi: arquitetura em Londrina".
O professor de arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Jorge Marão, autor do livro "A casa", com referência ao trabalho de Artigas, também vê com grande tristeza a atual situação das obras do artista na cidade. "Londrina poderia ser um tour arquitetônico do trabalho de Artigas. As obras realizadas aqui representam um tipo de linguagem marcante da arquitetura moderna e de um momento da carreira dele", sintetiza.
Segundo ele, que participou da restauração do Museu de Arte, o ideal é que reparos fossem constantemente feitos nas obras, com intervalos máximos de dez anos. "O melhor sempre é a preservação e manutenção. Caso contrário, grandes intervenções ficam caríssimas. Além disso, depois de muito tempo, em função da deterioração, também é difícil deixar a obra exatamente como era", atenta.

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