PATOLOGIAS FAMILIARES, PARA RIR
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de janeiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Um orçamento relativamente modesto de 55 milhões de dólares para uma bilheteria de 160 milhões em mais de três meses de exibição, somente nos Estados Unidos. Entrando Numa Fria, a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 5), caiu aos poucos nas graças do grande público americano, que adorou o auto-retrato e passou a recomendá-lo com entusiasmo, num animado boca-a-boca que já dura 14 semanas. Lá, o ritual de conhecer os pais da noiva ou do noivo é coisa séria, o momento que traz uma receita de terror inerente. Ver este transe levado à tela, transformado em comédia-pesadelo, deve funcionar como uma espécie de catarse, o que explicaria a adesão a Meet the Parents. Mas não é só isso. O filme é de fato muito engraçado em vários momentos, divertido quase o tempo todo e tem lá o seu charme como uma sitcom muitos furos acima das comediotas que infestam a televisão americana e são exportadas via cabo. No Brasil já existe perto de uma dezena.
O enfermeiro Greg Focker, aliás Gaylord Focker - não é preciso muito esforço para imaginar o que a dupla de roteiristas do filme tinha em mente quando criou este sobrenome, com a respetiva sonoridade hardcore) - está profundamente envolvido com Pam Byrnes (Teri Polo), uma professora de escola elementar. Greg (Ben Styller) gostaria de aproveitar o fim de semana para pedir a amada em casamento. Mas ao contrário, o sincero afeto de Greg, e também sua paciência e logo sua sanidade são colocados em teste quando eles seguem juntos de Chicago para Nova York. O motivo da viagem? Conhecer os pais de Pam, aproveitando o casamento da irmã dela.
A viagem é um desastre já a partir do aeroporto, na chegada. O que não se encontra é a mala de Greg. E se esta situação por si não era ruim o suficiente, na bagagem extraviada estava o anel de noivado. O casal chega afinal à confortável e acolhedora casa dos pais dela, Jack (Robert De Niro) e Dina (Blythe Danner). E logo as coisas começam a desandar. Talvez tenha sido o modo como Jack, aparentemente um aposentado expert em flores (mas na verdade um ex-agente da CIA, onde prestou serviços em interrogatórios por 30 anos), ensinou o belo gato himalaio a usar a patente para as necessidades. Ou talvez a inconfidência de Pam, que revelou a antipatia de Greg pelos felinos em geral. Ou ainda os mórbidos atentados de Jack à poesia, lidos à mesa em homenagem às cinzas da mãe dele depositadas numa urna na sala de jantar. O desconforto de Greg o leva a mentir sobre si mesmo, em tentativa de se impor como candidato a genro ideal. E este é um passo desnecessário e suicida: o pai da moça, paranóico por formação e herança reacionária paramilitar, reforça as suspeitas que tem sobre Greg e o mantém sob vigilância com um sofisticado sistema de câmeras escondidas pela casa. O fim de semana, a princípio aparentemente ameno, agora já se sabe, vai em crescendo até atingir o status de catástrofe.
Não que o humor de Entrando Numa Fria seja sempre absolutamente extraordinário. Ou original. Há mesmo momentos questionáveis, como a insistência em criar grosseiro constrangimento com o sobrenome Focker. Ou os gags envolvendo marijuana, um obsessão recorrente. Ou ainda o infeliz plano escatológico no jardim, onde toda a família é recoberta por respingos fecais da fossa transbordante. Mas são deslizes perdoáveis. Logo o diretor Jay Roach, um nome credenciado pelos sucessos de Austin Powers e aqui prestigiado pela Dreamworks - foi o ano de acertos da produtora de Spielberg -, reencontra o timing momentaneamente esquecido e retoma com fervor o tom de farsa, o grande segredo do equilíbrio do filme. Três sequências de antologia: no primeiro jantar em família, a oração improvisada, a urna funerária de mamãe, o gato idolatrado, o poema terapêutico e um mortífero champanhe barato de 14 dólares. Na caçada ao gato no telhado, os cigarros, o fio elétrico, as folhas de outono e um soberbo altar nupcial esculpido em madeira - e em chamas... E finalmente o discurso ensandecido de um Greg estressado pela tentativa de embarcar a mala na cabine do avião de volta, perfil bem traçado de uma realidade sociológica contemporânea.
De Niro, que assina Meet the Parents como um dos produtores, aceitou o papel de Jack sem nem mesmo ter lido o roteiro, tal a admiração pelo trabalho do diretor Roach. E uma vez mais se dá muito bem na comédia, gênero habitualmente na contramão de sua galeria de wise guys e outros tipos periféricos, notáveis também pela parceria com Martin Scorsese. Aqui ele obtém uma performance balanceada entre a óbvia auto-paródia de seu personagem em A Máfia no Divã e um intuitivo senso de realidade que trouxe dos papéis mais sérios. Quem melhor que o sociopata de Taxi Driver ou Cabo do Medo para encarar malignamente o patético Greg enquanto aplica o teste do detetor de mentiras que por acaso mantém no escritório secreto de ex-agente da CIA?
Ben Stiller vem crescendo a cada filme, e sua disponibilidade como ator principalmente de comédia deve gerar interpretações ainda melhores. Ele vem se tornando um mestre na arte de expressar com humor o desconsolo ou o abandono. Parece fácil, mas requer treino, disciplina e, óbvio, percentual generoso de inspiração e talento. Stiller tem tudo isso, embora não ainda de sobra.


