Pato Fu faz 10 anos e continua original
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quinta-feira, 25 de julho de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O Brasil vulgarizou as gravações ao vivo. De tão explorados pela indústria fonográfica, os registros de shows passaram a ser espezinhados pela crítica como produtos caça-níqueis, relegados à lata de lixo nas discografias dos artistas.
Ao comemorar dez anos de carreira, a banda Pato Fu decidiu arriscar no formato com a chancela da MTV. O resultado surpreende. ''MTV ao Vivo Pato Fu'' chega hoje ao público em CD, DVD e programa de TV. O programa vai ao ar às 22h30 na MTV.
Fugindo aos clichês, o grupo mineiro garimpou 15 faixas de seus seis álbuns apresentando-as em novas roupagens. Incluiu ainda quatro canções inéditas no repertório ''Me Explica'', ''Por Perto'', ''Não Mais'' e ''Nada pra Mim''. O show foi gravado nos dias 28 e 29 de maio no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte.
O complexo arquitetônico, assinado por Oscar Niemeyer, abrigou um cassino nos anos 40 sendo posteriormente tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. O Pato Fu apostou num cenário transgressor, onde projeções variavam de acordo com o ritmo das músicas. Para a gravação, a platéia ficou limitada a cerca de 200 integrantes de fã-clubes espalhados pelo país.
No palco, Fernanda Takai (vocal e violão), John (guitarra, violão, programação e vocal), Ricardo Koctus (baixo) e Xande Tametti (bateria) tiveram a companhia do tecladista Lulu Camargo (ex-Karnak) e da dupla gaúcha Hique Gomez (violino, serrote e voz) e Nico Nicolaiewksy (acordeon e voz) os dois últimos do espetáculo ''Tangos & Tragédias'', em cartaz há dezoito anos.
A coleção de faixas reúne sucessos como ''Canção pra Você Viver Mais'', ''Quase'', ''Depois'', ''Antes que Seja Tarde'' e ''Um Dia, Um Ladrão''. A mudança nos arranjos chega a deixar o coro da platéia para trás em ''Sobre o Tempo'', revisitada em versão acelerada. Em ''Made in Japan'', a abordagem deleta o instrumental original apagando todos os vestígios orientais.
Mas o grande trunfo são as inéditas, que sozinhas valem a aquisição do CD. ''Me Explica'', uma homenagem a Herbert Vianna, traz guitarras na frente, vocais distorcidos e ruídos eletrônicos. A balada ''Por Perto'' é candidata a figurar em trilha de novela e explodir nas paradas. A triste ''Não Mais'', com primazia de violinos, remete ao grupo inglês Portishead. E ''Nada pra Mim'', já gravada por Ana Carolina, decalca arranjos de Burt Bacharach na mais bela composição já criada pela banda.
Com público fiel e críticas favoráveis, o quarteto primou pela coerência registrando seis álbuns ao longo de uma década: ''Rotomusic de Liquidificapum'' (1993), Gol de Quem? (1995), ''Tem Mas Acabou'' (1996), ''Televisão de Cachorro'' (1998), ''Isopor'' (1999) e ''Ruído Rosa'' (2001). No ano passado, o Pato Fu foi destaque na revista norte-americana Time, que escalou a banda entre as 10 melhores do mundo ao lado de nomes como U2 e Radiohead.
O programa da MTV terá 1 hora de duração, intercalando trechos do show com depoimentos dos músicos. Quem perder hoje, pode assistir as reprises amanhã (às 10 horas), domingo (13 horas) ou segunda-feira (0h30). O DVD traz a íntegra do espetáculo, sem cortes. A seguir, leia entrevista com o baixista Ricardo Koctus.
No Brasil, muita gente abomina discos gravados ao vivo acusando o formato de ser um mero produto caça-níquel. Como vocês encaram esse tipo de crítica?
Ricardo Koctus - No Brasil, a idéia de disco ao vivo ficou banalizada porque as bandas e os artistas não vêem a coisa como um projeto especial. Lá fora, os álbuns ao vivo são celebrados. Tem inclusive um lance de colecionador, do cara que compra registros piratas de shows. Eu mesmo tenho discos ao vivo piratas dos Stray Cats, Beatles e Elvis. No Brasil, a banda sai em turnê e resolve gravar um show para um disco. O pior é que, às vezes, os caras caem na estrada com a mesma turnê para promover esse disco. Acho isso cretino. É uma coisa que não nos atrai. Só resolvemos aceitar o convite da MTV porque vimos que era um projeto bacana, que dava para fazer coisas legais. A gente indicou como seria, indicou o lugar e eles compraram a idéia. Queríamos gravar um disco que nos desse orgulho.
Como foi a escolha do repertório? Que critérios vocês utilizaram para garimpar faixas dos 6 álbuns gravados pela banda?
Primeiro, pensamos em fazer algo diferente retrabalhando os arranjos para não mostrar as músicas nas versões originais. Para isso, procuramos escolher as composições que nos dessem boas idéias. Hits que as pessoas sempre pedem, como ''Pinga'', ''Ando Meio Desligado'' e ''Qualquer Bobagem'' ficaram de fora, Tentamos trazer novidades sem medo da reação das pessoas. Os músicos convidados vieram a somar. Quando o Hique Gomez tocou um serrote extraindo o som que seria do theremim na introdução da faixa ''Eu'', enxergamos que o universo de criação seria grande. O disco virou uma coletânea de luxo, com faixas inéditas e faixas com arranjos totalmente modificados.
Você tiveram muito trabalho na fase de mixagem? Tiveram que apagar muitos gritos e vozes?
O processo de mixagem não é simples. Se você tiver uma captação ruim, ferrou tudo. No nosso caso, tivemos que mexer aqui e ali limando os zunzunzuns da platéia e alguns ruídos da guitarra. O curioso foi notar os contrastes no comportamento da platéia durante o show, entre uma música mais calma e outra mais pesada. Foi como se a gente tivesse tocado num teatro com a platéia subindo nas poltronas.
Por que vocês escolheram o Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, para as gravações?
Escolhemos o Museu por ser um espaço pequeno, enquadrado à realidade do Pato Fu. Não somos uma banda que vende milhões. Não ficaria legal gravar num palco para 40 mil pessoas, seria inviável. O Metallica, por exemplo, consegue gravar com a pressão de grandes platéias. Eles fazem uma turnê de 80 shows, gravam todas as apresentações e depois lançam um disco depois de escolher um registro que ficou bom.
Vocês incluíram quatro faixas inéditas no repertório. Haviam outras composições novas, que ficaram de fora?
Existiam outras, como a ''5 Discos'' gravada pelo Pedro Mariano e a ''Todos os Dias'' gravada pela Zélia Duncam. Mas trabalhamos em cima de um prazo. Quando vimos que as quatro músicas inéditas estavam legais, decidimos mexer nos arranjos das outras faixas. Ficamos ensaiando durante dois meses, que era uma coisa que não fazíamos há muito tempo. No começo, chegamos a pensar na idéia maluca de gravar este ao vivo só com inéditas. É uma idéia que não descartamos para o futuro.
No ano passado, uma edição da revista norte-americana Time deu um grande espaço para a música brasileira. Jogou o Max de Castro nas alturas e colocou o Pato Fu numa lista das dez melhores bandas do mundo. O que esse destaque significou para vocês?
Primeiro, é legal figurar numa lista como essa, especialmente ao lado de bandas como U2, Radiohead e Aterciopelados. Mas o prestígio da Time não atinge o grande público. A repercussão ficou restrita aos fãs e ao mundo da crítica. É claro que é uma massagem no ego, como foi tocarmos no Rock in Rio para aquela multidão e para os canais de TV, jornais, revistas, fanzines e sites de todo o mundo. O bacana é que, a partir daquela reportagem, fizemos contatos com o Aterciopelados, da Colômbiam. Pode ser que a gente faça alguma coisa juntos, vamos ver. O mais interessante é saber que tem gente lá fora prestando atenção em bandas que não cantam em inglês.


