Patativa para sempre
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terça-feira, 09 de julho de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local<br> O grande poeta popular Patativa do As 
Francelino França
Reportagem Local
O grande poeta popular Patativa do Assaré, 93 anos, morreu anteontem em Assaré (a 600 Km de Fortaleza), vitimado por falência múltiplas dos órgãos. Ele respirava com ajuda de um balão de oxigênio. O enterro aconteceu no final da tarde de ontem em sua cidade natal. Cego desde os anos 90, ele não saía de casa e não recebia mais visitas. Mesmo doente, fumava dois maços de cigarros diariamente.
Antônio Gonçalves da Silva, nome de batismo de Patativa do Assaré, recebeu o pseudônimo de José de Carvalho, no livro ''O Matuto Cearense e o Caboclo do Pará'', em 1930. A voz do poeta lembrava o patativa, pássaro pequeno de canto sonoro. O sobrenome veio da cidade onde nasceu. Antônio esquentou os bancos escolares por apenas quatro meses, por volta dos 12 anos, quando aprendeu apenas o abecedário. Mesmo com tempo exíguo de escola, recebeu em 1999 o título Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual do Ceará.
A principal temática dos versos de Patativa era a seca, problema da terra onde vivia. Ele também contava histórias pitorescas da vida sertaneja. Desde cedo, o poeta tomou consciência das possibilidades de mudança e do impacto que sua voz podia ter.
O professor de literatura da Universidade Estadual de Londrina, Alcides Carvalho, visitou o poeta no Ceará várias vezes. Em 1973, enquanto fazia mestrado na Sorbonne, em Paris, Carvalho estudou a obra do poeta cearense e tentou levá-lo à capital francesa, mas Patativa quebrou a perna em Fortaleza e não pôde viajar. ''A grande produção de Patativa do Assaré era oral. Ele sempre foi uma fonte de inspiração, porque permaneceu no sertão. A obra dele é uma das mais estudadas hoje principalmente pela autenticidade. Os poemas de Patativa reproduziam a língua falada'', destaca Alcides Carvalho, à reportagem da Folha2.
Conhecido por sua memória prodigiosa, o poeta popular recitava trechos quilométricos de sua obra. ''O meu fraco é fazer verso e recitar para os admiradores, porém nunca escrevo meus versos. Eu os componho na roça, ao manejar a ferramenta agrícola e os guardo na memória, por mais extenso que seja'', confessou no livro ''Inspiração Nordestina'', de 1956. Amante da improvisação, ele falava em setissílabo e parte de sua obra nunca será transcrita. ''Morre com o poeta um grande acervo porque não foi escrito'', ressalta Alcides. Mas certamente muitas gavetas cearenses abrigam os versos ainda não publicados do poeta de Assaré e que podem ser reunidos para publicação.
Foram editados ainda ''Cantos do Patativa'' (1977), ''Ispinho Fulô'' (1988), ''Balseiro, Patativa e Outros Poetas do Assaré'' (1991), ''Aqui Tem Coisa'' (1994) e ''Cordéis do Patativa''. A discografia de poemas declamados de Patativa reúne seis volumes.
Seus versos foram musicados por incontáveis compositores. Luiz Gonzaga transformou em sucesso ''Triste Partida''. ''Vaca Estrela e Boi Fubá'', considerada uma de suas criações mais conhecidas, ganhou popularidade na voz do cantor Fagner, em 1980. ''Seu dotô, me dê licença/ Pra minha história contá / Hoje eu tô em terra estranha/ É bem triste o meu penar/Ê, ê Vaca Estrela/ô,ô,ô, boi Fubá./''. Fagner também musicou ''Manera Frufru'', em 1973.
A pesquisadora Sylvie Debs escreve no prefácio do livro - Cordel (Patativa do Assaré) que ''ele compõe uma poesia essencialmente narrativa, que testemunha história cotidiana do sertanejo e torna-se, de qualquer maneira o mediador encarregado de traduzir o mundo exterior aos sertanejos''.
O emprego da língua falada que retoma o estilo e a pronúncia popular o elevou à categoria de poeta da oralidade, como nos versos: ''Seu dotô que é da cidade/Tem diproma e posição/E estudou derne minino/Sem perdê uma lição''. Em sua linguagem sertaneja, de tonalidade própria, os estudiosos ressaltam que Patativa traz um abrandamento ou amolecimento e vocalização de consoantes e grupos consonantais, com eliminação das letras e fonemas finais.
No ano passado, Patativa do Assaré foi homenageado em retrospectivas de filmes sobre sua figura singular, principalmente realizados por Rosemberg Cariri. Ainda em 2001, foi publicada a biografia ''O Poeta do Povo Vida e Obra do Patativa do Assaré'', de autoria de Assis Ângelo.


