Um dos poetas mais populares e festejados do Brasil, Patativa do Assaré, 92 anos, voltou aos noticiários durante a semana em todo o País. O poeta foi hospitalizado no Crato (a 542 km de Fortaleza), vitimado por uma pneumonia e inflamação na próstata.
No dia 23 de dezembro, o poeta ainda em casa, se levantou da cama para receber um grupo de motoqueiros do Cariri, que foi render-lhe homenagens. Não perdeu a oportunidade para recitar versos. Na ocasião, declamou o poema ''As Proezas do Padre Nonato''. Hospitalizado, encantou as enfermeiras com seus versos. Mas durante todo o ano de 2001 Patativa do Assaré foi homenageado, em retrospectivas de filmes sobre sua figura singular, principalmente realizados por Rosemberg Cariri. Homenagens oficiais destacando a perenidade da voz do nordeste não faltaram. Sua obra foi amplamente divulgada nas escolas e até um jovem de 16 realizou um curta-metragem de animação reverenciando o poeta.
Antônio Gonçalves da Silva garimpou seu nome de um pássaro pequeno de canto sonoro e o sobrenome veio da cidade onde nasceu. Sua passagem pelos bancos escolares registra apenas seis meses de estudos, aos 12 anos, tempo suficiente para aprender o abecedário e escrever seus versos. Conhecido por sua memória prodigiosa, o poeta popular recita decor trechos quilométricos de sua obra. ''O meu fraco é fazer verso e recitar para os admiradores, porém nunca escrevo meus versos. Eu os componho na roça, ao manejar a ferramenta agrícola e os guardo na memória, por mais extenso que seja'', confessou no livro ''Inspiração Nordestina''. Somente aos 16 anos, adquire uma viola de 10 cordas e decide fazer improvisações segundo a tradição sertaneja dos violeiros, já trazendo aquela que seria sua marca na literatura de cordel: descrever o ritmo do trabalho cotidiano, ressaltando o aspecto lúdico e comemorativo. Desde cedo, ele tomou consciência das possibilidades de mudança e do impacto que sua voz podia ter. A pesquisadora Sylvie Debs ressalta no prefácio do livro - Cordel (Patativa do Assaré) que ''ele compõe uma poesia essencialmente narrativa, que testemunha história cotidiana do sertanejo e torna-se, de qualquer maneira o mediador encarregado de traduzir o mundo exterior aos sertanejos''. Amante da improvisação, parte de sua obra nunca será transcrita.
''Vaca Estrela e Boi Fubá'', considerada uma de suas criações mais conhecidas, ganhou popularidade na voz do cantor Fagner. ''Seu dotô, me dê licença/ Pra minha história contá / Hoje eu tô em terra estranha/ É bem triste o meu penar/Ê, ê Vaca Estrela/ô,ô,ô, boi Fubá./''.
Uma das características do mestre é a utilização do que definiu José Arraes de Alencar de língua cabocla. ''A linguagem sertaneja, de tonalidade própria, traz um abrandamento ou amolecimento e vocalização de consoantes e grupos consonantais, com eliminação das letras e fonemas finais'', ressaltou Alencar. O emprego da língua falada, que retoma o estilo e a pronúncia popular o elevou à categoria de poeta da oralidade, como nos versos: ''Seu dotô que é da cidade/Tem diproma e posição/E estudou derne minino/Sem perdê uma lição''.

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