Vitórias, fracassos e alguns constrangimentos são comuns na vida de quem atua na televisão. Ao analisar suas trajetórias, por motivos diversos, muitos nomes já consagrados sabem bem as dificuldades enfrentadas em determinados trabalhos e personagens. Seja pela falta de preparo por ser estreante, aquele papel rejeitado pelo público, a inadequação a um tipo ou a simples irrelevância do personagem ou da produção. Entre altos e baixos, muitos atores lembram com certa vergonha desses momentos. Mas a sensação de aprendizado é unânime. No ar em "Liberdade, Liberdade", Dalton Vigh demorou a ser escalado para protagonistas e papéis de destaque na Globo. No final dos anos 1990, quando ainda buscava oportunidades em emissoras paulistas, ele deu vida a Tomás, mocinho de "Pérola Negra", do SBT. Autocrítico, o ator admite que não gosta de rever o trabalho por conta de seu desempenho e da qualidade técnica da produção. "Era uma novela simpática, simples e feita com orçamento muito baixo. Esses dias, assisti a algumas cenas e foi um alívio notar que consegui me livrar de algumas caras e bocas que fazia naquela época. O mais impressionante é que o público ainda fala sobre esse trabalho", garante, entre risos.
Companheira de Dalton no elenco da atual novela das onze, Letícia Sabatella também tem suas memórias não tão nobres da carreira. O fator surpreendente reside no fato de que ela se envergonha de seu elogiado desempenho como Thaís, a garota de programa que marcou sua estreia na tevê em "O Dono do Mundo", de 1991. A recente reprise da novela de Gilberto Braga pelo canal pago Viva fez a atriz receber muitas ligações elogiosas. No entanto, Sabatella só conseguia pensar no quão "crua" era na época. "Eu sofro assistindo. Aí prefiro evitar. Estava muito ‘crua’, demorei a entender o ritmo de trabalho de uma novela e errava muito em cena. Por sorte, meus companheiros de trabalho eram bem pacientes. Eu tremia ao ter de fazer gente como o Antonio Fagundes e a Fernanda Montenegro repetirem as cenas por minha causa", ressalta, com pesar.
Fracos desempenhos na estreia são o "calo" de muitos atores. Por sorte, a grande maioria consegue superar esses momentos inicias e seguir em frente. Lavínia Vlasak e Mariana Lima, que estrearam juntas na televisão em "O Rei do Gado", de 1996, até hoje se ressentem de suas atuações e, apesar da saudade dos bastidores, preferem não tocar muito no assunto em entrevistas. "Acho que hoje em dia existe todo um aparato para estreantes, que tem psicólogos e preparadores à disposição. Antes você era meio que jogado nos estúdios. O lado bom da minha geração é que aprendemos na marra, fazendo", compara Vlasak. Um dos protagonistas da versão nacional de "Rebelde", exibida pela Record entre 2011 e 2012, Chay Suede teve todo o suporte para estrear no folhetim jovem. O problema era a total falta de entusiasmo do ator com a carreira artística. Ele foi forçado pelos pais a participar do "reality" musical "Ídolos". A repercussão de seu nome no programa rendeu o convite para a novela e, novamente, os pais decidiram por ele, que acabou como intérprete do romântico Tomás. "Hoje eu agradeço pela insistência. Mas não era o que eu queria na época. Minha vontade era cursar Cinema. Demorei a tomar gosto por tudo aquilo e isso é muito evidente quando revejo algumas cenas", explica o ator.
Um dos casos mais curiosos sobre os percalços da carreira é o de Adriana Esteves. Depois de estrear em "Top Model", de 1989, e se firmar como uma aposta dentro da Globo após seu ótimo desempenho em "Meu Bem, Mel Mal", de 1990, a atriz foi escalada como a mocinha vingadora de "Renascer", novela de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 1993. Logo nos primeiros capítulos, uma junção de fatores que incluem o sucesso da primeira fase da trama, a caracterização e o desenho da personagem, acabaram por fazer o público rejeitar sua sensual Mariana. "Foi um dos momentos mais complicados da minha carreira. As críticas eram pesadas demais. Afetou diretamente minha vida pessoal e fui ao fundo do poço. Tratei com remédios, terapia e segui em frente. Hoje vejo que tive de passar por aquilo para me tornar a atriz e a pessoa que sou agora", assume.

HORA DE CRESCER
Além de talento, o fator sorte conta muito quando se está na televisão desde criança. Muitos atores foram "engolidos" ao não conseguirem fazer uma transição satisfatória de personagens infantis para adultos. É da infância que intérpretes que conseguiram sobreviver na profissão guardam algumas de suas frustrações. Na lista, Selton e Danton Melo, Deborah Secco, Isabela Garcia e Glória Pires. "Comecei aos cinco anos e não gostava de atuar. Mas meus pais me incentivavam. Na virada da infância para a adolescência, foi ainda mais complicado. O trabalho deixa de ser lúdico e começa a se tornar responsabilidade. É duro rever trabalhos da minha primeira fase na tevê. Só fiquei feliz em ser atriz mesmo a partir dos anos 1980", admite Glória.

Instantâneas
- Adriana Esteves quase desistiu da carreira depois de "Renascer". No entanto, após uma breve passagem pelo SBT, voltou à Globo como protagonista de "A Indomada" e acumulou papéis de destaque e desempenhos premiados em produções como "Torre de Babel", "O Cravo e A Rosa" e "Avenida Brasil".

- Hoje em dia, Chay Suede é um dos nomes jovens mais disputados dentro da Globo. Ele está escalado para "A Lei do Amor", próxima trama das 21 horas.

- Atualmente, "Meu Bem, Meu Mal" é reprisada pelo canal pago Viva.

- Depois de um longo período distante das novelas, Lavínia Vlasak voltou ao vídeo e à Globo em "Totalmente Demais", atual trama das sete.

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