Passeio redescobre a Serra do Mar
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terça-feira, 04 de maio de 2004
Marisa Folgato<br> Agência Estado 
São Paulo - Uma viagem no tempo sobre trilhos, que começa na parada da antiga Hospedaria do Imigrante, de 1886, no Brás, passa pela Vila de Paranapiacaba, com suas casinhas construídas pelos ingleses em 1860, e termina com uma inesquecível descida de trem pela Serra do Mar até Santos, numa estação também do século 19. O passeio piloto de 75 quilômetros pela antiga linha da inglesa São Paulo Railway será feito no dia 17 de junho, para convidados.
A data marca a entrega do restauro da torre do relógio da Estação de Paranapiacaba, patrocinada pela BM&F e pela MRS Logística (concessionária que faz transporte ferroviário de carga até o Porto de Santos). ''Mas o passeio de trem também é o lançamento de uma campanha de recuperação e revitalização da ferrovia em São Paulo'', diz a responsável pelo projeto, Maria Inês Mazzoco, coordenadora de Preservação Ferroviária da Rede Ferroviária Federal (RFFSA).
Segundo o superintendente da Regional São Paulo da RFFSA, Fábio Aguiar, no início, o roteiro será só entre a hospedaria, onde funciona o Memorial do Imigrante, e Paranapiacaba, num trecho de 46 quilômetros. ''Isso deve estar operando em três meses'', afirma Aguiar.
Já o trajeto até Santos vai estar disponível no fim do ano ou no começo de 2005. ''Teremos a opção de fazer o trajeto de São Paulo ao litoral e vice-versa, trazendo turistas dos navios que atracam no porto para a capital também.'' Mas ele ressalta que a volta sempre será de ônibus. A realização de tudo, porém, ainda depende de parcerias com a iniciativa privada.
No dia 17 de junho, o passeio usará vagões históricos como o número 1, de 1909, de laca branca, usado por autoridades e pela administração inglesa. Haverá ainda um carro de primeira classe de 1927, em exposição no memorial, e outros dois, de 1918 e 1922. ''Mas a locomotiva não será a vapor, por causa do desgaste'', diz Aguiar. Quando o roteiro entrar em funcionamento, serão empregados carros do tipo Pullmann, da antiga Fepasa, de linhas de longo percurso.
Além do roteiro turístico, há a intenção de criar um centro de documentação ferroviária de São Paulo. ''Vamos também lançar um livro em três volumes, registrando todo o acervo da rede, desde a São Paulo Railway, a primeira linha do Estado, inaugurada em 1867'', explica Maria Inês.
De acordo com ela, o projeto prevê ainda inventários histórico, arquitetônico e fotográfico, além do registro da memória oral dos ferroviários. ''Está nos planos a melhora dos museus de Paranapiacaba e de Jundiaí, que seria voltado para a ferrovia eletrificada'', diz ela.
Um dos sonhos, acalentado também pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) que deve administrá-lo, é a reativação do sistema funicular de Paranapiacaba, do século 19, desativado nos anos 70. Ele utiliza cabos para a descida de trens pela serra. Segundo Maria Inês, a maior parte dos 8 quilômetros do sistema, único no mundo, se perdeu por falta de manutenção. ''Mas dá para fazer um uso turístico de um trecho de 1.200 metros.''
No passeio que será lançado em junho, o trem turístico vai descer pela cremalheira, sistema japonês que começou a funcionar em 1976 e utiliza um esquema de engrenagens e ainda transporta carga. O roteiro, além do prazer de andar de trem, inclui visitas ao Memorial do Imigrante e à Vila de Paranapiacaba. Ela foi comprada pela prefeitura de Santo André da RFFSA e está em processo de restauro dos imóveis. Segundo a prefeitura o Mercado Municipal, de 1890, já foi entregue no fim do ano passado e o Clube União Lyra-Serrano, dos anos 30, está em obras. O próximo passo é a recuperação do Castelinho, a casa do engenheiro chefe inglês, uma espécie de prefeito da vila, que é de 1902.
Está em negociação a próxima linha turística: Marinque-Sorocaba-Fazenda Ipanema.


