O mundo das cantigas infantis vai das brincadeiras e bichos (“atirei um pau no gato”) às histórias de amor – e a cantiga Teresinha de Jesus parece até medieval nos modos dos personagens: “Teresinha de Jesus / de uma queda foi ao chão / acudiram três cavalheiros / todos três chapéu na mão”.

A segunda quadra repete a melodia da primeira mas com uma sequência trinária em clímax: “O primeiro foi seu pai / o segundo seu irmão / o terceiro foi aquele / a quem Teresa deu a mão”.

Como o número 2 simboliza tantas paridades na vida, como céu e terra, pai e mãe, vida e morte, o número 3 compõe tríades como o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os Três Reis Magos, os três mosqueteiros, os três porquinhos etc e, no caso de Teresinha, a dimensão genética (o pai), familiar (o irmão) e amorosa (o cavalheiro).

Essa cantiga apresenta uma romântica visão do casamento: “Teresinha levantou-se / levantou-se lá do chão / e sorrindo disse ao noivo / eu te dou meu coração”. E assim, ao dar a mão ao cavalheiro para se levantar, figurativamente Teresinha também começa vida nova.

A quadra final apresenta mais novidades, a começar pelo foco narrativo que passa da terceira pessoa (ela Teresinha) para a primeira pessoa: “Da laranja (eu) quero um gomo / do limão quero um pedaço / da morena mais bonita / quero um beijo e um abraço”. E revela-se o gênero masculino do narrador, ao querer uma “morena”. A mudança de foco narrativo indicia também que a cantiga decerto foi criada por partes, provavelmente distantes em tempo e lugar.

Já a cantiga Se Esta Rua Fosse Minha, talvez a mais poética de todas, também prima pelas repetições – acentuadas por uma melodia que destaca cada sílaba como se fossem as pedrinhas usadas para “ladrilhar” a rua: “Se esta rua / se esta rua fosse minha / eu mandava / eu mandava ladrilhar / com pedrinhas / com pedrinhas de brilhantes / só pra ver / só pra ver meu bem passar”.

O sofrimento amoroso, tipicamente adulto (pois são os adultos que fazem as cantigas infantis), instala-se na segunda estrofe: “Nesta rua / nesta rua tem um bosque / que se chama / que se chama solidão // Dentro dele / dentro dele mora um anjo / que roubou / que roubou meu coração”.

Assim, o desejo amoroso de enfeitar o mundo transmuta-se em solitário sofrimento, como se só a isso fosse destinado o amor. Mas a redenção surge com outra voz, pois o “anjo” passa a falar: “Se eu roubei / se eu roubei teu coração / tu roubaste / tu roubaste o meu também // Se eu roubei / se eu roubei teu coração / é porque / é porque te quero bem”.

Além da melodia em tom alto, a lembrar os sambas de Cartola, assim a cantiga tem também o condão de superar o sofrimento, decerto por isso se tornando preferida entre tantas. Talvez isso se deva também ao fato de relatar magicidades, como o sonho de se ter a própria rua e recobri-la de brilhantes, além da rua “ter um bosque”, coisa nada usual em ruas.

Assim se vê que o mundo das cantigas infantis, criadas certamente por adultos, é um mundo criança nas suas ilogicidades e incongruências, e justamente por isso é encantador. E quem quiser que conte outra.

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