Passeio de trem é opção para o dia seguinte
A viagem de Curitiba a Paranaguá - são 110 quilômetros de percurso e cerca de 3,5 horas de duração - leva o turista a cidades históricas da região e mostra todo o encanto da Mata Atlântica, um dos raros exemplos de vegetação nativa que ainda resistem à devastação no Brasil. Hoje, em todo País, somente 4% desta floresta sobrevive e a maior parte está no Estado do Paraná.
A própria estrada de ferro, construída ao longo da Serra do Mar, é um capítulo à parte. Inaugurada em 1885, ainda na época do Império, a obra é considerada um dos marcos da engenharia do século passado. Durante o percurso são encontradas 17 estações, 41 pontes e viadutos, 32 pontilhões e 13 túneis, abertos na base do martelo. Consta que durante a construção, que durou cinco anos, pelo menos 5 mil operários morreram por causa do clima da região, a malária, febre amarela e os incontáveis acidentes.
Em muitos trechos, no contorno da serra, o trem passa por grandes precipícios, alguns com quase mil metros de altitude, e ainda mostra da janela quedas dágua - como a cascata Véu da Noiva - e belíssimas formações rochosas. Um dos pontos mais bonitos - e também de maior emoção - é o viaduto Presidente Carvalho, construído sobre cinco pilares na própria rocha, com cinco vãos de 12 e 16 metros. A impressão, quando se passa por ele, é que o trem saltará para o espaço.
Muita gente que pega o trem em Curitiba acaba descendo na estação de Morretes, uma cidade do século 18 e que ainda conserva na arquitetura das casas um bom exemplo do estilo barroco. Conhecida como Terra da Cachaça ou Terra do Barreado (um título controverso, também pleiteado por Paranaguá e Antonina), Morretes tem hoje cerca de 13 mil habitantes, grande parte vivendo do turismo - seja através de restaurantes, pequenos hotéis ou produção artesanal de pinga, paçoca ou as mais variedades de produtos feitos a partir da banana.
Uma das atrações da cidade é a Igreja Matriz Nossa Senhora do Porto, construída em 1812 no local onde teria residido o primeiro morador de Morretes. A Casa Rocha Pombo, construção em homenagem ao filho mais ilustre da cidade, também é outro ponto muito visitado pelos turistas. Lá, existe uma réplica em pedra de toda a Serra do Mar. Outra casa famosa, localizada na Rua General Carneiro, é a que hospedou D. Pedro II e a esposa, nos dias 3 e 4 de junho de 1846.
De Morretes dá para avistar ainda o belíssimo Pico Marumbi, com 1,5 mil metros de altura e onde é comum a prática do montanhismo. O Pico Marumbi é cortado pela estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Também muito procurado pelos visitantes é o Porto de Cima, um povoado onde são encontradas ruínas de engenhos de erva-mate, casarões, ruas de pedra e até uma igreja da metade do século passado. No porto, é possível acampar e praticar o bóia-cross no Rio Nhundiaquara.
Além do bom estado de conservação de seus casarões antigos (muitos deles feitos com farinha de sambaqui), o visitante que chega a Morretes vai se impressionar com a quantidade de restaurantes que tem na cidade, a maioria na beira do Rio Nhundiaquara. O prato principal não podia ser outro: o barreado, uma carne cozida durante horas e sempre servida acompanhado de farinha de trigo ou mandioca, salada verde e banana. Sair da cidade sem comer o barreado ou experimentar a cachaça - de cana-de-açúcar, banana ou gengibre - é quase uma ofensa para os moradores locais.
Depois de conhecer Morretes o turista pode seguir viagem de trem até Paranaguá (onde teve início a colonização do Sul do Brasil, ainda no século 16), ou então passar por Antonina, cidade litorânea a pouco mais de cinco quilômetros de distância. Além das praias, lá é possível conhecer construções dos séculos 18 e 19, portos e o Complexo Industrial Matarazzo, um conjunto de edificações construído na primeira metade deste século pelo Conde Matarazzo - da mesma família Matarazzo de São Paulo.
Se o destino é voltar a Curitiba, uma boa opção para quem está de carro é seguir pela Estrada da Graciosa (PR-410), que também contorna a Serra do Mar e foi construída a partir de trilhas traçadas por índios, ainda por volta de 1650. São 149 curvas e belíssimos pontos de paradas, com mirantes e cascatas. A estrada tem cerca de 20 quilômetros e termina na BR-116. De lá, são mais 37 quilômetros até Curitiba.fotos: Lúcio HortaNas alturasEm muitos trechos, no contorno da serra, o trem passa por grandes precipícios, alguns com quase mil metros de altitudeLúcio Horta
Especial para Folha Turismo





