Curitiba Segundo o dicionário Michaellis, moda é voga. Segundo o mesmo manual, voga é o que tem fama, celebridade. Traduzindo para bons entendedores, moda é trazer a cultura que está no momento no ar e transformá-la em peças usáveis. Desse jeito vem acontecendo desde os anos 60, quando a alta-costura deu lugar ao prêt-à-porter, e os criadores do mundo inteiro se renderam ao estilo dominante das ruas para fazerem moda.
Partindo deste princípio os dois últimos dias do Curitiba Fashion Art, evento que mostrou os novos estilistas do Estado, em um dos prédios da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), durante quase toda semana passada, mostraram coleções que intercalaram momentos de grandes criações sintonizadas com o verdadeiro significado do que é moda e outros não.
O primeiro a mostrar suas peças na sexta-feira foi Silmar Alves. Adepto à corrente de vender sua aldeia ao mundo, o estilista buscou nos anos 70 da Rua XV de Curitiba, em seus ladrilhos e seus personagens, idéias para criar o que pode se chamar de uma coleção para chorar. Muita gente se emocionou com o banco da XV (onde o estilista sentou no final lendo um jornal) e a estampa do bondinho colocados na boca de cena com as músicas alusivas à época e ao Paraná.
Tirando os floreios sentimentais de querer remeter à moda ao passado e apelar para um desejo sentimental e antropofágico de continuar vendendo Curitiba ao mundo, algumas peças em alfaiataria mostraram uma ligeira evolução no trabalho do estilista. No mais o trabalho de Silmar Alves ainda precisa encontrar o resto do mundo. Comparando Curitiba à Paris, Alves argumenta que suas saias, com o bondinho da Rua XV estampado na frente, podem ser vendidas em qualquer lugar do mundo, tanto quanto uma blusa com a torre Eiffel. Alguém arrisca um palpite??
Garotas urbanas conduzidas pelo espírito atual das ruas são as inspiradoras de Angélica Sanches, estilista da Sista, que mostrou sua coleção no segundo desfile da noite de sexta-feira. Com um público fiel, a grife apresentou peças que fazem parte da linguagem universal dos que andam de skate, jogam basquete, treinam boxe etc.
As garotas da Sista querem se movimentar? Angélica oferece peças listradas para conduzi-las ao movimento. Um dos fortes da coleção são as peças com ajustes. Pensando em quem tem poucas roupas, mas gosta de mudar de atitude do dia para noite, a estilista oferece a possibilidade da mulher poder brincar com o caimento da roupa.
Encerrando a noite, Junior Gabardo e a mais concorrida grife do evento: a Sexxes. ''Faço roupas para minhas clientes'', disse Gabardo, depois do desfile, ao ser interpelado por um jornalista, que não aprovava os curtíssimos vestidos vermelhos que o estilista apresentou na coleção.
A Sexxes está comemorando sete anos de vida e colocou na passarela criações envolvendo o número. Curvaturas, cores que foram do prata ao verde-limão, passaram pelo preto, branco e chegaram ao vermelho vivo apareceram bastante. Tecidos como malha devorê, liganetes lisas ganharam formas de número sete. Tudo muito cavado e mais ousado. Uma coleção para vender.
Na noite de sábado, dia do encerramento do CFA, foi feita a estréia da Fusion. Criada pelo comitê de estilo do Consórcio Exportador de Malhas Retilíneas Fusion Brasil, a marca apresentou muito dourado, prata e branco. Uma alusão ao momento mundial de abusar destes componentes. Calças justas ao corpo, decotes profundos nas costas, mistura de elementos como malha e índigo, fizeram do desfile um momento correto do evento.
Quem fechou a bateria de desfiles foi Jefferson Kulig. O estilista é o único a participar da São Paulo Fashion Week, uma das principais semanas de moda do mundo, e trouxe para Curitiba uma edição condensada do que mostrou em São Paulo.
Kulig viaja pelo mundo da física, matemática e química. Brinca com a gravidade (as modelos desfilam como se estivessem hipnotizadas, às vezes amarradas a pequenos fios de molas metálicas) e instiga a platéia. Uns odeiam, outros amam. Estampas surgem dos mapeamentos via satélite feito de cidades.
Recorrente no uso de materiais tecnológicos em peças recortadas, ele faz novidade com sapatos espaciais e suas funções térmicas e agrada no final, ao sair do conceitual e mostrar maravilhosos vestidos com detalhes plissados na frente que podem ser usados na rua.
Comparando os trabalhos de todos os estilistas que estiveram no CFA dá para dizer que Kulig está conectado com o espírito da criação de moda. Ele não se apega ao lugar onde está e faz uma roupa usável por todas as mulheres do planeta. E isso é moda.

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