Passando o punk a limpo
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quinta-feira, 18 de setembro de 1997
Nelson Sato Londrina 
Reprodução
Mate-me Por FavorAtrito, choque e controvérsias. O punk foi isso, gerou isso e parece que preservou essa vocação. O livro Mate-me Por Favor - Um História sem Censura do Punk (Please Kill Me), lançado agora no Brasil pela editora gaúcha L&PM, levanta uma polêmica sobre o movimento que sacudiu a música, a moda e o comportamento dos jovens do mundo todo na segunda metade dos anos 70.
Nas quatrocentas e poucas páginas, os autores Legs McNeil e Gillian McCain trazem uma outra versão sobre as origens do punk, que segundo eles teria nascido nos Estados Unidos e não na Inglaterra como ficou registrado para a posteridade. Diferente da versão conhecida que flagra o surgimento do punk em Londres com os Sex Pistols (empresariados por Malcolm McLaren), o livro demonstra que tudo começou mesmo nas entranhas de Nova York em casas noturnas como Maxs Kansas City e CBGBs.
ReproduçaoThe New York Dolls
Baixarias Revisitando os primórdios do movimento, McNeil e McCain conduzem os leitores ao túnel do tempo de onde emergem com figuras como Andy Warhol, Velvet Undergound, Jim Morrison, Iggy Pop & The Stooges, MC5, The New York Dolls, David Bowie, Patti Smith, Television até chegar aos Ramones. Para defender a tese central do calhamaço, o espaço dedicado a esse elenco é obviamente superior ao conferido à cena musical britânica.
Para o alívio dos preguiçosos, Mate-me Por Favor é de leitura ligeira. Em vez de apresentar um relatão dos autores, reúne uma coleção de depoimentos dos personagens como se fosse um coro de vozes numa longa entrevista. Toda a fauna dos anos heróicos se faz presente com a língua solta: artistas, empresários, groupies, jornalistas, fotógrafos, ex-mulheres, namoradas etc. Os depoimentos são fartos de lembranças envolvendo sexo e drogas.
ReproduçãoIggy Pop
Todos eles abrem a bico disparando palavras de baixo calão, revelando baixarias uns dos outros e contando detalhes impublicáveis sobre fatos ocorridos em quartos de hotéis, camarins, bares e festas. Eu não conseguia entender como Iggy (Pop) conseguia que as garotas ficassem em volta dele. Sabe como é, elas sentavam ao redor dele e olhavam-no comer meleca do nariz. Não conte que Iggy sentava e comia meleca, mas ele fazia isso - diz num trecho Scott Asheton, na época baterista dos Stooges.
ReproduçãoRamones
Decepção A maioria do material é resultado de centenas de entrevistas originais realizadas pelos próprios autores. Muitas falas, porém, foram extraídas de fontes variadas como revistas, jornais, diários e outros livros. Ao escrever sobre o punk, Legs McNeil apenas ilustrou seu currículo de observador de primeira hora do movimento.
Foi ele quem batizou o movimento de punk, ao dar esse nome a uma revista de música e cultura pop dos anos 70. Mas à empolgação inicial, ele não deixa de relatar sua posterior decepção. Nos últimos capítulos de Mate-me Por Favor, McNeil aborda a decadência do punk americano com o fim das bandas, as mortes por drogas e o modismo difundido pelos grupos britânicos.
ReproduçaoTelevision
O estouro dos Sex Pistols na América, segundo ele, foi a pá de cal para enterrar de vez o movimento. Da noite para o dia, o punk tinha se tornado tão estúpido quanto tudo o mais - diz ele, num trecho. Aquela maravilhosa força vital articulada pela música parecia, agora, mais uma armação da mídia. Depois dos Sex Pistols, o punk tinha se tranformado em tudo o que odiávamos.
Está aberta a polêmica, rapazes.


