Na semana retrasada, este espaço foi dedicado à exposição - em cartaz em Londrina amanhã - do artista Artur Barrio. Comentou-se sobre o processo que o levou a realizar sua ação sobre o espaço alugado de um galpão preparado especialmente para a criação de um trabalho inédito. A idéia central do texto estava baseada na questão da imagem, das marcas que se transformam em palavra e da palavra que se transforma em matéria para discutir a relação estabelecida entre o cadernolivro e a ocupação do espaço expositivo oferecido pela VII Semana de Arte.
Pois bem. Se a questão lá era sobre o processo de criação do artista, aqui a proposta é pensar sobre o trabalho realizado e suas implicações no processo histórico da arte contemporânea. Como que uma provocação, algumas frases são colocadas soltas na parede como ''o espectador não faz a obra'', contrariando uma premissa fundamental da filosofia e da arte ocidental que a obra não é só do autor que a faz, mas também do espectador que a refaz para si. Levemos em consideração, só para citar alguns casos, o pensamento do poeta Paulo Leminski (''poeta não é só quem cria, mas quem lê a poesia''), a máxima do artista alemão Joseph Beuys (''todo homem é um artista''), além de toda a pesquisa das obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, de concepção de obras com a participação do espectador. O que pensar, uma vez que em Barrio, sua poética pode ser considerada ''desmaterializada'', impedida de se transformar em mercadoria - finda a exposição, nada será preservado, a não ser como registro da obra - não cedendo à fácil sedução visual?
Há mais de duas décadas os artistas vêm lutando com o problema em que o apelo à chamada sensorialidade se trasformou. Um chavão que acabou servindo para vender desde produtos de beleza até maços de cigarros. Como em um esquema pavloviano, de estímulo-resposta, tudo se tornou sensorial para o desfrute do consumidor-participante da ação artística. O que Barrio propõe com esta observação, pode ser visto como uma diferenciação entre a contemplação ativa e a contemplação passiva de que nos fala o zen budismo, no caso do espectador e sua relação com a obra. Uma possibilidade é olhar o mundo e dar às costas aos acontecimentos, sem por eles ser afetado, a outra, é roubar um instante deixado para o desfrute. Ou, como dizia John Cage: ''Não tente melhorar o mundo, você só tornará as coisas piores.''
Mas, e o que fazem ali aquelas garrafas de vinho viradas contra uma vasilha de água para se manterem frescas? E o rolo de corda pronto para ser puxado? Esses objetos permanecem provocando nossa vontade de puxá-los, se oferecem para serem bebidos. O artista desafia nossa reverência e nos obriga a uma certa frustração diante de um desejo contido. O mundo da arte é cruel. E pode ser perverso. Será que ''a arte contemporânea já foi definida?'', nos indaga outra frase escrita na parede, em mais um dos constantes atritos com o espaço e com as certezas.
Barrio se apóia em uma certa vertente da tradição moderna para discutir seu processo de trabalho. Mais que Duchamp, ele cita Picasso. Procura se posicionar frente ao Dadaísmo e ao Surrealismo como movimentos artísticos a serem considerados pela história da arte muito mais do que os movimentos racionalistas, como o suprematismo, o construtivismo ou o neoplasticismo, que vão desaguar na arte conceitual. É um artista que procura mergulhar no inconsciente, até certo ponto movido a intuição. Por isto, sua arte está ligada sempre a um certo estado subversivo, pois já não há o que afirmar nesta tradição, a não ser sua falência. Ela já não oferece nada, a não ser que algo lhe seja roubado.
Como nas perfurações do cadernolivro Mémisis que vai perdendo a marca da punção à medida em que se aprofunda no papel das páginas, a obra de Barrio vai do nada à água, fazendo uma ligação entre a memória e o mimetismo - uma vez que seu desejo é acompanhar o movimento do tempo e a transformação do espaço - até retornar novamente ao branco da página, ao espaço vazio deste imenso galpão, o Museu do nada, que logo voltará à sua antiga função, como parte do cotidiano da cidade. Matéria em estado de mutação, o processo de trabalho de Artur Barrio parece concordar com a frase do poeta que dizia que ''toda beleza será convulsiva, ou não será''.

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