Por essa eles não esperavam. Distantes das tão sonhadas férias, em plena aridez do período letivo e mais ou menos conformados com a rotina de livros e cadernos, meninos e meninas são de repente surpreendidos por um oásis de fantasia, uma dose esperta de esfuziante combustível capaz de tornar menos estressante a travessia do semestre. É claro que o pragmático exibidor tem olhos apenas para o enunciado contábil do ‘‘feriadão’’, mais filmes infantis mais início de mês igual a gordas bilheterias. Mas um toque extra de imaginação, de resto matéria-prima comum aos lançamentos do período, pode bem concluir que a mágica a partir de hoje nas salas somente foi possível por uma conjunção de fatores. Como os poderes do pequenino E.T., o pó de pir-lim-pim-pim sobre Peter Pan e a super-inteligência de Jimmy Neutron, aliados a uma majestosa lua cheia de bicicletas e outros encantamentos.
Lançado em 1982 e logo conduzido ao restrito clube das maiores bilheterias de todos os tempos - U$ 400 milhões, somente no mercado americano -, está de volta em relanámento nacional ‘‘E. T. - O Extraterrestre’’ de Steven Spielberg (veja a programação de cinema na página 2). Não é um novo filme, uma continuação, a retomada da história do pequeno, esquisito e simpático alienígena que há duas décadas emocionou milhões de espectadores mundo afora. Embora para consumo externo Spielberg negue a intenção de realizar uma sequência, a idéia não está descartada definitivamente . Mas enquanto o cineasta não decide, aproveita para fazer mais dinheiro com o filme original. A diferença para um relançamento comum está na nova maquiagem: ‘‘Penso que seria estupendo relançar o filme com algumas melhorias em seu vigésimo aniversário, de acordo com meu perfeccionismo, e também para agradar o público novo e o velho’’.
É claro que o diretor não mexeria na substância da trama. Para ele, ‘‘foi como pegar um pincel e colocar algumas cores num rosto pálido. Alguns rolos de negativo estavam riscados e muito sujos; assim, havia algum trabalho de arqueologia no processo, como por exemplo encontrar as lentes que o diretor de fotografia, Allen Daviau, utilizou naquela ocasião’’, acrescenta Spielberg. Sempre exigente, ele não queria que ‘‘E. T.’’ perdesse a delicadeza e as surpresas do momento da estréia. Talvez a alteração mais importante feita nesta nova edição seja o ‘‘desarmamento’’, isto é, policiais e agentes do governo agora aparecem sem armas nas mãos, durante a caçada final ao alienígena e a Elliot, o amiguinho terráqueo.
Graças ao sistema digital, alguns detalhes foram incluídos ou restaurados, como no momento em que o extraterrestre mostra seu longo pescoço. Novas cenas, deixadas de lado em 82, foram reincorporadas ao filme, estendendo sua duração final em mais alguns minutos. As 248 cópias em lançamento no Brasil - cerca de dois terços dubladas - vão também exibir maior brilho e nitidez de imagem e som, por conta de um trabalho minucioso de digitalização e remasterização. No final da contas, temos de volta a mesma e empolgante aventura, a história bem contada sobre uma grande amizade entre pequenos, um daqui e outro de um lugar pouco mais distante. E narrar bem a ação temperada com emoção é a receita melhor desempenhada por Spielberg.
Candidato derrotado ao Oscar no último domingo - perdeu para ‘‘Shrek’’, o que é ponto para currículo -, ‘‘Jimmy Neutron, o Menino Gênio’’ (confira a programação de cinema na página 2) é um pequeno inventor auto-suficente e nada imprudente, que constrói seu próprio foguete para viajar ao espaço com o fiel cão-robô Goddard e seu melhor amigo Carl Wheezer. Pode ainda criar geringonças para mudar de penteado ou escovar os dentes, ou ainda chegar à escola pulando em uma estranha goma elástica. Como muitas crianças, é incompreendido pelos pais.
Jimmy quer contato com seres extraterrestres. ‘‘Por mais inteligentes que sejam, se papai e mamãe não os conhecerem, são estranhos’’, adverte a mãe do pequeno herói. De qualquer maneira, o Neutron mais jovem fará contato, e alienígenas verdes, ovais e com humor distorcido chegarão à Terra, raptarão todos os pais e deixarão as criaças sozinhas. E como se sabe, criança sozinha quer mais é se divertir. Mas muita diversão estressa, e quando todos estão empanturrados de guloseimas e sem motivação, a saudade dos pais aperta. É quando Jimmy e seu amigos entram em ação de resgate. Ele transforma jogos em naves espaciais e parte rumo ao desconhecido para salvar pais e mães transformados em zumbis. Na platéia, até a miudalha, alí pela faixa entre quatro e oito anos, vai entender que todo sacrifício conduz a bom resultado.
Prazeiroso e ao mesmo tempo poético, este é um longa de animação cem por cento computadorizado. A garotada que ‘‘zapeia’’ entre os canais infantis pagos já viu a série Jimmy Neutron no Nickelodeon. O longa-metragem, dirigido por John Davis, oferece um humor brincalhão, e até os maiores, mesmo não rindo de gags semiocultas como em ‘‘Shrek’’ ou ‘‘Toy Story’’, seguirão a narrativa com satisfação, embora sabendo que não estão diante de um filme inesquecível.
Um dos muitos personagens criados pelos estúdios Disney e bem sucedidos na tela, Peter Pan está novamente voando pelo imaginário dos espectadores quase 50 anos depois de suas andanças e sobrevôos pela Terra do Nunca. Pois é justamente este território de faz-de-conta que o garoto que não queria ser adulto revisita agora, em ‘‘Peter Pan de Volta à Terra do Nunca’’ (veja a programação de cinema na página 2). Na verdade, a criação original é do escritor James Barrie, através de historieta que correu mundo a partir de 1929. Esta retomada do personagem era um velho sonho dos animadores da casa Disney, que por muitos anos andaram atrás de um roteiro que não perdesse o frescor da primera narrativa e cuja fábula fosse atraente a pequenos novos espectadores, destinatários finais de uma produção que, em tempos de novas tecnologias, pudesse mobilizar a imaginação das platéias mirins.
Quem viu o primeiro (e quem não viu ?) se lembra com certeza de Wendy, tiete de Peter Pan, motivo dos ciúmes da Fada Sininho e por ele salva de muito perigos. Pois aqui a heroína é Jane, filha adolescente de Wendy, agora casada com um militar. Estamos de novo em Londres, anos 40. A garota perdeu o senso de imaginação e de diversão, e não acredita nos atributos do herói de sua mãe. Já o irmão menor, Danny, alimenta fábulas e fantasias. Numa noite qualquer, eis que ressurge outro velho conhecido, o Capitão Gancho, sempre disposto a se vingar de Peter. Com seus piratas, ele sequestra Jane pensando tratar-se de Wendy. O destino é com certeza a Terra do Nunca, onde a velha história vai se repetir, mas com outra variante. Jane, claro, vai aos poucos crendo na magia que a cerca.
Possivelmente a fórmula aqui empregada não encha de entusiasmo uma parcela de público que procura nas telas outros temas como entretenimento. Mas o caminho traçado desde sempre por Walt Disney e seus herdeiros artísticos e espirituais é o da emoção através de desenhos como este, que falam de amor e de cordialidade. Talvez a volta de Peter Pan pareça antiquada, mas a poesia e a contemplação do mundo através dos olhos infantis é sempre válida e atual.

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