‘‘Apocalipopótese’’! Como um exu brabo procurando intriga, Guilherme Vaz já chegou ao bobó de camarão jogando blasfêmias e impropérios aos quatro ventos, como quem devora sem calma e sem modos as delícias delicadas colocadas à mesa. Em sua aparência de capitão-do-mato – metido em colete de pescador – não havia como encontrar qualquer indício de sensibilidade. Fumava um cigarro atrás do outro e batia as cinzas no chão da sala de visitas, como convidado que era da pequena festa em homenagem aos artistas. Disse também que ele, os artistas de sua geração, seriam lembrados daqui há cem anos. Apavorante!
Apocalipopótese, que ele dizia de boca cheia e rindo, foi um evento produzido por Hélio Oiticica, em 1968, no aterro do Flamengo, no Rio, reunindo diversos artistas com propostas inovadoras de arte.No outro dia fez uma palestra dizendo-se artista conceitual, mas roubou a cena mesmo foi na palestra do artista Tunga, quando este disse que um artista deveria ser rigoroso com seu trabalho e Vaz contra-atacou dizendo que aquilo era mistificação do fazer artístico. Depois dirigiu-se à reunião onde mostraria o vídeo de uma gravação de uma música sua. Agora era ‘‘artista-plástico-conceitual-que-faz-música’’.
Logo nos primeiros acordes, já era possível sentir que as impressões sobre as pessoas podem nos enganar diante de sua obra. Regendo a orquestra do Teatro de Manaus – composta por vários músicos importados dos países da Europa oriental envolvidos em conflitos étnicos – e mais quatro índios que ele juntou para a gravação do vídeo, o som que se ouvia era, ao mesmo tempo, exótico e familiar, ancestral e contemporâneo. A câmera do cineasta Sérgio Bernardes se envolvia no meio dos músicos e do ambiente do teatro com tal ritmo e senso harmônico, que se tornava parte integrante da música. Em meio aos violinos engravatados na partitura exata do compasso da música, os índios cantavam e tocavam, interferindo, acrescentando e entrando em confronto cultural e, finalmente se integrando à massa sonora total da peça apresentada. Um dos instrumentos indígenas – parecido com um pequeno e frágil berimbau – era tocado por uma índia tímida, que apresentava, pela primeira vez, o único instrumento feminino tocado pelas mulheres da aldeia, cuja função é a de seduzir os homens da tribo. Para fazê-lo, é necessário todo um ritual de preparação, sendo que sua afinação só se mantém por alguns dias e nada mais. O contrário de um stradivarius. Arrepiante!
O maestro Guilherme Vaz pertence à mesma geração de Cildo Meireles, Artur Barrio, Antonio Manuel, enfim, àqueles jovens que participaram da mostra ‘‘Do Corpo à Terra’’ em Belo Horizonte e depois da exposição ‘‘Information’’ no MoMa, em Nova York. Vieram no rastro do neoconcretismo, iniciado por Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, etc.. Que iniciaram eventos como o ...Apocalipopótese. Mas ele sumiu de volta a Goiás, para o sertão, no meio dos índios, da floresta. Não é um artista, é um bruxo.
Dias atrás, opinando sobre a ligação entre artes plásticas e música em uma matéria para o Jornal do Brasil, no Rio, o maestro disse que para fazer este tipo de arte, era preciso técnica. Quase que disse rigor. No encarte de um de seus Cds, ‘‘O Anjo sobre o verde’’, vê-se, nos créditos, o financiamento do governo de Goiás. O outro, ‘‘Sinfonia do Fogo’’, é produção independente. Há, nos dois, o mesmo caráter de música modal, arquetipica, e, ao mesmo tempo, dissonâncias, uso de recursos tecnológicos, referências diversas, colagens. O som é mágico. Dá vontade de se embrenhar no meio do mato. De sentir a geologia das eras sobre um mirante de pedra.
No encarte, seu autor fala de um ‘‘verrugado pirata calvinista, Jean de Léry, salteador, bucaneiro, ladrão, bandoleiro, raptor, invasor, emérito teofrênico e arrivista bíblico’’ que levou os índios, em idos de 1500, a um início de parusia, ao entoar cantigas modais gálicas. Guilherme Vaz, o xamã, ao falar de Jean de Léry, fala de si próprio. Como os índios que queriam mais, também é essa nossa vontade depois de ouvir os dois Cds. Na música ‘‘A pedra’’, por exemplo, o ataque insistente à uma nota do piano torna concreto, palpável mesmo o som emitido, como pedra, como coisa, matéria, mostrando que música e artes plásticas realmente se correspondem.
Ah, parusia, segundo o Aurélio, é a volta gloriosa de Jesus Cristo no final dos tempos, para estar presente no juízo final.
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