Contravenção e críticas sociais, recheadas de picardia, mais uma vez formam a dobradinha do novo disco de Bezerra da Silva. Ou seja, em ‘‘Eu tô de P钒 nada de novo há. Mesmo assim, é impossível não dar uma passada de ouvido, mesmo que rápida, para saber como é que, desta vez, Bezerra da Silva está tratando seus motes preferidos. Irresistível também é dar uma verificada nas letras que canta para ver qual é o babado da vez. O negócio é o seguinte: mesmo repetitivo, é preciso reconhecer que Bezerra da Silva possui um incrível fraseado rítmico. E mais: sua cozinha instrumental sempre é de primeira. Esses são os dois principais motivos que o salvam da banalidade pura.
Como sempre, o partido alto impera de cabo a rabo. É através dessa vertente do samba que Bezerra solta o verbo. Sem sombra de dúvidas, em ‘‘Eu Tô de P钒, a faixa que mais chama a atenção é ‘‘Garrafada do Norte’’ (Edson Show-Wilsinho Saravá-Roxinho). Outra vez ele aborda a questão da maconha. Só que a mensagem agora é mais incisiva e menos debochada. A enfiada de dedo nas mazelas sociais se concentra principalmente em ‘‘Curumim’’ (Eli Santos-Raimundo de Barros Filho-Regina do Bezerra) em que o capitalismo selvagem e a supremacia do Primeiro Mundo são apontados como os grandes responsáveis pelo miserê brasileiro.
Na condição de amigo da malandragem, ele vai espalhando seu ‘‘quaisquaisquais’’ de forma divertida. Um bom exemplo é ‘‘Ressuscita Ele’’ (Cláudio Inspiração-Evandro galo) em que o credor pede a Deus que ressuscite um canalha devedor que morreu de boberia ‘‘com as ventas entupidas de papel’’. Agora, se é para explicar por que o Brasil é assim, digamos, povoado por pessoas cheias de dedos, é melhor ouvir a genial ‘‘É Ladrão que Não Acaba Mais’’ (Otacílio da Mangueira-Ary do Cavaco).
Numa visão antropologicamente divertida, foi assim que começou a roubalheira no Brasil: ‘‘Quando Cabral aqui chegou/E semeou sua semente/Naturalmente começou/a lapidação do ambinete/Roubaram o ouro, roubaram o pau, pra ficar legal/Ainda tiraram o couro/Do povo desta terra original/E só deixaram a má semente, presente de grego/Que logo se proliferou/E originou a nossa gente. Ainda dentro da linha debochada, outro bom momento é ‘‘Olha o Boi’’ (Carlinhos do Jorge Turco-Zezé).
Enfim, ‘‘Eu tô de P钒 tem sua valia. Tem seu peso. É que mesmo com a imagem de malandro um tanto quanto manjada, Bezerra da Silva ainda consegue mandar seu recado de maneira corrosiva. (A.M.J.)

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