Parque tem fauna e flora exuberantes
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segunda-feira, 01 de janeiro de 2001
Rodolfo C. Martino Agência Estado 
Não só os aspectos históricos atraem os turistas principalmente em se tratando dos ecoturistas. A Trilha do Ouro está situada no Parque Nacional da Bocaina, com 110 mil hectares de Mata Atlântica, fauna e flora exuberantes. A paisagem natural reúne desde uma enseada com praias arenosas (praias do Cachadaço e do Meio), uma ilha oceânica (da Tesoura na região de Trindade), despenhadeiros, grotões e vales profundos, a campos de altitudes superiores a 1.800 metros.
O mais alto é o pico do Tira o Chapéu, com 2.088m, na divisa dos municípios de São José do Barreiro e Areias. Há muitos rios (a principal bacia é a do Mambucaba, afluente do Paraíba), que formam belíssimas cachoeiras de águas frias e cristalinas.
Só para se chegar ao começo da trilha passa-se por três exemplares de quedas dágua: a de Santo Izidro (com mais de 80 metros), das Marrecas e das Posses. No segundo dia da trilha (que é feita a pé ou a cavalo), encontra-se a mais imponente cachoeira, a dos Veados, com 120 metros de altura divididos em três tombos de rara beleza.
Os turistas deslumbram-se com as manchas de pinheiros-do-Paraná e do pinheiro bravo que dominam os campos nativos, diz José Inácio Junior, o Zé Pescocinho, que nasceu nos campos de Bocaina e é profundo conhecedor da região. Desde 1971, ele faz o trajeto de São José do Barreiro à Bocaina levando turistas, bocaneiros (como são chamados os habitantes do parque) e cargas, as mais variadas.
Como o parque não tem infra-estrutura, muitas das 60 famílias que vivem no local acabam dando pousada e alimentação para os turistas. É uma coisa ainda rudimentar, diz o guia. Mas que está garantindo uma renda extra. É uma ajuda e tanto, ainda mais que alguns alugam suas mulas para fazer a travessia da trilha levando mochilas, barracas e outras tralhas do pessoal.
O trajeto da Trilha do Ouro pode ser feito em dois dias, mas as agências de turismo locais optam pelo passeio de três dias. Para quem se aventurar por conta própria, a rota possui áreas para camping selvagem. Mas o Ibama precisa dar autorização com antecedência para o visitante.
Explica-se o cuidado. Não só a reserva de Mata Atlântica está ameaçada: há várias espécies de animais em extinção. A lista é considerável: suçuarana, mono-carvoeiro, jaguatirica, sagui-da-serra-escuro, gato do mato, tiriba, lontra, tamanduá-bandeira, macuco, gavião de penacho, gavião-pega-macaco, jacutinga, gavião-real, papagaio-de-peito-roxo, sabiá-cica, entre outros.
É preciso também fiscalizar a caça e a pesca e ultimamente ganhou destaque a ação dos palmiteiros que estão agindo indiscriminadamente e dando fim à palmeira juçara, uma das plantas nativas que não se desenvolve sob cultivo planejado.
Às vezes, o pessoal do Ibama até acha ruim com a gente, de tanto que os turistas reclamam, diz um dos guias do local que preferiu não se identificar. É que lá em cima eles topam com caçadores e palmiteiros ou com alguma clareira nova no meio da mata, e ficam indignados. As autoridades precisam olhar para o parque com mais atenção.
Afinal, bocaina significa caminhos para os céus. Uma das tantas histórias da trilha atribui aos negros fugidos das fazendas a denominação do lugar. Quando havia nuvens, não era possível enxergar o alto das montanhas, onde por vezes, de tanto frio, chegava até a nevar. Eles imaginavam que lá em cima pisariam em nuvens e encontrariam a liberdade, o paraíso. E, decididamente, em nenhum tempo liberdade e paraíso combinam com destruição.


