Parlapatões de terno e gravata
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segunda-feira, 24 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Muita gente estranhou quando viu o material de divulgação do espetáculo ''As Nuvens e/ou um Deus Chamado Dinheiro'', da companhia paulista Parlapatões, Patifes e Paspalhões. O espetáculo tem estréia nacional hoje no Festival de Teatro de Curitiba (FTC) e traz os atores vestidos de terno e gravata. Tão sérios quanto à companhia, voltada principalmente à comédia, permite. O diretor da peça, Hugo Possolo, justifica:''Quem são os caras que nos fazem de palhaço hoje? São os que vestem terno e gravata''.
Brincadeiras à parte, ''As Nuvens'' é uma adaptação de duas comédias de Aristófanes, ator grego que viveu quatro séculos antes de Cristo. Aristófanes era um reacionário e é essa característica que Possolo pretende ressaltar ao levar os textos para o palco. Mas nessa ótica, garante, o espetáculo é extremamente contemporâneo e mantém o ''humor parlapatônico'' na montagem.
A idéia de estrear ''As Nuvens'' surgiu de um método pouco convencional (atenção, companhias, não tentem fazer isso em casa): nasceu de um sonho. Possolo sonhou que estava montando Aristófanes e passou a estudar o comediante grego com afinco. Leu as 11 comédias integrais e outros tantos fragmentos de textos do autor à disposição na literatura mundial. Propôs a montagem ao grupo no final do ano passado e os ensaios começaram no início de fevereiro, já de olho na estréia no FTC. Esta é a terceira vez que a companhia, que já tem 12 anos de lida, participa do festival. E são esses 12 anos, conforme atesta Possolo, que permitem que a companhia ensaie um espetáculo em tão pouco tempo.
Em ''As Nuvens'', o público vai se deparar com uma crítica aos novos tempos, à guerra e à luta diária pela sobrevivência, temáticas abordadas sem deixar de lado o já característico humor dos Parlapatões. Há também, claro, uma (boa) história a ser contada. Aristófanes transporta para o teatro as questões sociais, políticas e religiosas da Atenas da sua época. ''Nuvens'' satiriza a filosofia e a pedagogia e foi escrita para atacar Sócrates e seus seguidores sofistas. ''Um deus chamado Pluto'' é uma fábula mitológica da divindade da riqueza. ''Ao final do espetáculo os personagens das duas peças se encontram'', adianta o diretor que também integra o elenco.
Além de Possolo, os atores Raul Barreto, Claudinei Brandão, Eduardo Silva e Henrique Stroeter fazem parte da encenação. A direção musical ficou a cargo do músico Paulo Soveral, que pela primeira vez trabalha com o irmão, Hugo Possolo. O cenário assinado por Luís Frugoli traz a reprodução de uma tela de Windows (aquela que aparecem as nuvenzinhas) e também uma nota de 100 dólares, tudo para retratar os dias atuais. Afinal, o tempo passa, mas ainda estamos todos correndo atrás do dinheiro para (tentar) sobreviver. A peça fica em cartaz hoje e amanhã. Depois tem temporada em São Paulo, ainda sem data definida.
O FTC também apresenta hoje outras três outros espetáculos na Mostra Contemporânea: ''Orgia'', ''Loucura'' e ''Belarmino e o Guardador de Ossos''. ''Loucura'', da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, é uma adaptação livre de vários autores da literatura mundial que de alguma maneira abordaram o tema título. O monólogo é representado por Gabriel Miziara, um dos atores da pouco convincente ''A hora em que não sabíamos nada uns dos outros'', que teve três apresentações na Mostra Contemporânea.
''Belarmino'' é uma surpresa. Apesar de ter começado suas apresentações no último domingo, é de bom tom que ninguém revele o local e a temática da montagem para aqueles que ainda pretendem assisti-la. Os espectadores só ficam sabendo para onde vão quando embarcam no ônibus que sai da frente do Palácio Iguaçu, a exemplo do que fez os Satyros na edição de 1998 do festival. A direção é do paranaense radicado em Mato Grosso, Amauri Tanguará.
''Orgia'', que entrou em cartaz ontem, tem direção de Roberto Lage e traz Cassio Scapin, Ines Aranha e Vanessa Bruno no elenco para contar a fábula escrita por Pasolini. Continua em cartaz até amanhã.


