Paris, 06 (AE) - Dezenas de brasileiros mais ou menos famosos e franceses curiosos lotaram o vernissage da exposição "Lasar Segall - Nouveaux Mondes", que foi aberta para o público na quinta-feira e vai até 14 de maio no Museu de Arte e História do Judaísmo, no Marais, em Paris. É a maior mostra já montada aqui sobre a obra do pintor lituano naturalizado brasileiro.
Segall viveu em Paris entre 1928 e 1932 e foi nessa cidade que nasceu seu segundo filho, Oscar, em 1930. Personalidades como o embaixador brasileiro Marcos Azambuja e o editor e conselheiro da Bienal de São Paulo Pedro Paulo Sena Madureira estiveram na abertura da exposição, que tem 224 trabalhos e ocupa duas grandes salas do museu, instalado numa belíssima vila histórica de Paris, o Hôtel de Saint-Aignam, construído no século 17.
"O particularismo da experiência de Segall o levou a fazer de cada olhar múltiplo uma expressão da universalidade", disse o ministro do Desenvolvimento, Celso Lafer, autor do texto do catálogo da exposição. Para Lafer, as diversas emigrações artísticas de Segall - especialmente a experiência brasileira - o põem numa posição singular entre os artistas modernos. "Sua obra mostra que ele tinha um olhar móvel, no qual olho e olhar se casavam", disse Lafer.
Quando se mudou para o Brasil (ele se naturalizou em 1927), Segall disse que o que o atraía era tentar entender esse país "imenso, puro e original". Já então tinha estabelecido um diálogo com os modernistas brasileiros, entre os quais difundiu métodos e influências expressionistas. Esse lado de sua experiência está registrado na primeira parte da exposição, que inclui obras a partir de 1910. O Brasil surge na segunda parte, na qual demonstra procurar na natureza e no povo brasileiros "metáforas de humanidade".
Segall já foi apresentado aos americanos em duas mostras
a primeira em 1997 (no The David and Alfred Smart Museum of Art
em Chicago) e a segunda em 1998 (no Jewish Museum, em Nova York). A retrospectiva do artista (nascido em 1891, em Vilna, Lituânia, e morto em 1957, em São Paulo) em Paris inclui pinturas, aquarelas, gravuras, desenhos e documentação iconográfica. Entre os documentos expostos está uma foto de 1897 de Segall e seus pais, Abel e Esther, em Vilna.
"Volta" - Lasar Segall "volta" a Paris após 40 anos - sua última exposição retrospectiva foi realizada no Museu de Arte Moderna da capital francesa em 1959. Existem duas obras do artista em acervos de museus franceses. "O Retrato de Lucy V" pertence ao museu Jeu de Paume, em Paris, e o quadro "Jovem com Acordeão II" está no Museu de Pintura e Escultura de Grenoble. Segundo o diretor do Museu Lasar Segall, Marcelo Araújo, houve uma pequena mostra de obras sobre papel de Segall em 1978 na Galerie Debret, na cidade, mas essa nova exposição é um acontecimento especial.
Outras obras do artista têm participado de diversas exposições coletivas em museus europeus nas últimas décadas, abordando aspectos do expressionismo alemão e do modernismo latino-americano ou da arte judaica do século 20. Em 1937, por exemplo, dez de suas obras estiveram na mostra Arte Degenerada, em Munique, ao lado de trabalhos de Chagall, Adler e Feisbuch.
Há apenas um pequeno problema de ordem curatorial a ser resolvido na mostra parisiense. Os títulos das obras de Segall foram todos traduzidos para o francês, mas seus títulos originais em português não foram registrados. O óleo sobre tela "Bananal", por exemplo, que é propriedade da Pinacoteca de São Paulo, virou "Bananeraie". Prevaleceu uma certa hierarquia etnocêntrica. Uma exposição de artista francês no Brasil certamente não incorreria no mesmo erro.