O Salão do Livro de Paris, que fechou suas portas ontem após cinco dias de debates e encontros com escritores do Brasil, serviu para despertar a curiosidade pela história de uma literatura de grande riqueza e complexidade, aquém do fenômeno de moda chamado Paulo Coelho.
Além dos 35 escritores convidados, o público que assistiu ao Salão pôde ouvir inúmeros especialistas em literatura brasileira, como Jacqueline Penjon, professora da Sorbonne, e Godofredo de Oliveira Neto, romancista e professor da UERJ.
O anunciado debate entre Jorge Amado e o fenômeno ‘‘místico-literário’’ dos últimos anos, Paulo Coelho, não se realizou, mas o público se interessou por compreender a diferença entre a literatura de caráter social do autor de ‘‘Dona Flor e seus Dois Maridos’’, com personagens que representam um grupo ou um segmento da sociedade, e as histórias que conta Coelho, que só se refere ao indivíduo e fala da ‘‘lenda pessoal’’ de cada um.
‘‘Um pouco de história da literatura brasileira pôde ajudar a entender alguns fenômenos do final dos anos 90 e dos estertores do milênio. Podemos partir do Romantismo, que surgiu nos meados do século XIX e serviu de raiz para uma literatura propriamente brasileira’’, lembrou Godofredo de Oliveira.
‘‘O romance ‘O Guarani’, de José de Alençar, dessa época, realça, por exemplo, a natureza brasileira e o índio, valorizando a união deste último com o branco. Dessa mestiçagem surgirá a nação brasileira. O Romantismo parte do pressuposto de que quanto mais se vai às origens, mais pureza se encontra. A coletividade é responsável pela perda desta pureza’’, acrescentou o especialista.
O marximo e a descoberta do inconsciente, graças à psicanálise freudiana, dirão o contrário do Romantismo, pois quanto mais se escava para chegar às origens mais perversidade se encontra.
‘‘No realismo, então, será graças ao coletivo que as taras da humanidade vão aflorar por completo. A mentira, e as dúvidas acerca de onde está a verdade, isto é, o real, serão constantes. Os romances de Machado de Assis, que acompanham mais ou menos a passagem de um século ao outro - ‘Dom Casmurro’ é um bom exemplo - estão claramente nesta linha’’, acrescentou o professor.
‘‘Esta visão vai durar muito tempo, até o Modernismo, como em ‘‘Vidas Secas’’ de Graciliano Ramos, nos anos 30, e em ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, de Guimarães Rosa, algumas décadas mais tarde. Mas o Modernismo possui já alguns matizes. ‘‘A mesma terra que dá uma mandioca que mata dá uma mandioca que engorda o gado’’, como escreve Guimarães Rosa em seu grande romance.
A professora Penjon, por sua vez, numa entrevista pela Internet, assinalou que ‘‘em 1922 o Modernismo, movimento de renovação intelectual e artística, ilustra a vontade de independência do Brasil com respeito à francofilia, por exemplo. Esse movimento era dirigido contra o uso acadêmico da língua portuguesa. Era preciso criar, a partir da herança multicultural do Brasil, uma identidade própria’’.
Para explicar o fenômeno Coelho, Oliveira Neto assinalou que ‘‘neste fim de século, de maneira curiosa, se volta pouco a pouco à idéia de que o bem e a verdade se encontram no fundo do indivíduo, e que sua realidade está dentro dele. O mal parece ser uma nefasta contribuição da coletividade. Assim se explica a forte individualização de algumas propostas literárias’’.
Para a professora Penjon ‘‘depois da segunda guerra mundial os autores brasileiros se preocuparam sobretudo com os problemas metafísicos. Com efeito, a industrialização, o êxodo rural e a violência urbana levaram certos escritores a se indagar sobre o lugar do homem nessa nova sociedade. Autores como Antonio Torres mostraram a brecha social, que se foi ampliando, entre o mundo rural e o mundo urbano, cada vez mais violento’’.

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