Paredes que choram
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2001
Marcos Losnak<BR>De Londrina<BR>Especial para a Folha2 
Fotografias de cadeias e presídios invariavelmente despertam um certo constrangimentos. Dão origem a um sentimento de desconforto, como se aquele que vê as fotos não desejasse entrar naquele lugar e o fotografado desejasse sair. Informam a existência de um mundo que todos sabem que existe mas que deve permanecer distante da sociedade. Longe da alegrias dos homens livres.
As fotografias de André Cypriano reunidas no livro ''O Caldeirão do Diabo'' percorrem esse mundo renegado pela maioria das pessoas de maneira poética e extremamente estética. Lançado pela Cosac & Naify Edições, a obra traz fotografias preto e branco realizadas na extinta penitenciária Cândido Mendes, situado na Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro.
O paulista André Cypriano, atualmente radicado em Nova York, permaneceu durante dez dias no presídio de Ilha Grande em 1993, para realizar as fotos. Logo depois a prisão foi desativada e o prédio implodido. Além das imagens, a obra também apresenta o relato de Cypriano sobre a experiência. O texto, próximo de um diário, potencializa as imagens de informação.
O presídio de Cândido Mendes possui uma história que se mistura com a própria história do país. Ele deriva do primeiro leprosário construído no Brasil, em 1871. Quando Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930, o prédio passou a ser utilizado como cadeia para presos políticos. Entre os detentos que foram isolados na ilha estava o escritor Graciliano Ramos, que ali escreveu ''Memórias do Cárcere''.
A Ilha Grande voltou acolher presos políticos durante o regime militar, instaurado em 1964. Entre os detentos da década de 70 estavam o jornalista Fernando Gabeira e o lendário homossexual carioca Madame Satã. O encontro entre presos políticos e presos comuns, a troca de informações entre os dois grupos, deu origem a mais temida organização criminosa, o Comando Vermelho. Ele foi fundado na penitenciária em 1979. Até ser demolida, em 1993, o Comando Vermelho administrou paralelamente da prisão de Ilha Grande, chamada pelos internos de Caldeirão do Diabo. Os detalhes são narrados por André Cypriano no livro.
As imagens documentais de ''Caldeirão do Diabo'' refletem vários ângulos de uma situação que ninguém deseja viver. Apesar da demolição e da morte da maioria dos retratados, as ruínas do lugar continuam chorando.
q O Caldeirão do Diabo - Fotografias e texto de André Cypriano, Cosac & naify Edições, edição bilíngue português/inglês, 112 páginas, R$ 49,00.


