Em meados dos anos 1960, a emigração para os Estados Unidos representava para Mendes um deslumbramento de bandeirante em mapear o desconhecido. De muitos anos para cá, até hoje, seu papel é de traduzir a música brasileira de maneira inteligível para os estrangeiros. E é o envolvimento com músicos bem mais jovens, naturalmente não sendo uma unanimidade em termos de gosto para o público, que revitaliza Mendes, ao contrário de tantos outros de sua geração ancorados no passado.
''Tem cara que me diz 'esse seu disco novo, eu não sei, não... Mas o meu filho adorou'. Eu respondo: mas, pô, eu não fiz pra você, fiz pro seu filho. (risos). Tem o pai que comprou o disco lá de trás e tem o filho que comprou o novo, é interessante isso, me dá prazer. E não estou falando de vaidade, mas é legal ver como a música transcende essa coisa toda, é atemporal'', diz.
O chute no preconceito e a cabeça aberta de Sérgio Mendes permeiam sua carreira há tempos. Em 1992, por exemplo, ele contou com a produção de Carlinhos Brown no disco ''Brasileiro'', e levou um Grammy. Em 2006, seu cartão de visitas, ''Mas Que Nada'' (composição dada de presente por Jorge Ben na década de 1960, no Beco), estourou novamente no mundo inteiro em gravação com o Black Eyed Peas, no álbum ''Timeless''. ''É a arte do encontro. Eu fiquei sem gravar uns oito anos. Simplesmente porque eu não estava mais com vontade de gravar. Lembro quando o Will.i.am. (Black Eyed Peas) chegou na porta da minha casa com uma caixa com todos os meus long plays. Era meu fã de carteirinha, conhecia minha obra inteira, não tinha por que não gravar com eles. Mas Que Nada é seguramente a música brasileira, gravada em português, mais conhecida no mundo. Garota de Ipanema, por exemplo, foi gravada em inglês pelo Sinatra'', comenta.
Em ''Bom Tempo'', lançado neste ano, todo em português, ele voltou a se envolver com Carlinhos Brown e Seu Jorge, gravando temas como ''Maracatu Atômico'' (Chico Science), ''Orfeu'' e ''Maracatu, Nação do Amor'', de Moacir Santos, ''Emoriô'', de João Donato e Gilberto Gil. Além de trabalhar pela primeira vez com Milton Nascimento, que canta e toca violão em ''Caxangá''. ''Ano que vem eu completo 70 anos de vida e 50 do meu primeiro disco. Seria bacana fazer um show com todos eles na praia de Niterói'', completa Mendes, empolgado com o lançamento previsto para este ano, pela Universal, de uma caixa com todos os discos de sua carreira.

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