WILMAR KLEIN
Parcerias inventivas
Arquivo FolhaO Stereolab aparece em duas faixas do CD ‘‘The Swinging Reflective’’Desde 1978, quando criou a banda experimental de inspiração dadaísta-surrealista Nurse With Wound, o inglês Steven Stapleton tem trabalhado com vários artistas e grupos igualmente inovadores como Jim Thirwell, Jacques Berrocal, Diana Rogerson, David Tibet, John Balance, Whitehouse, Sol Invictus, Organum, The Hafler Trio, Ramleh, Legendary Pink Dots, entre dezenas de outros, infelizmente pouco (ou nada) conhecidos no Brasil. Uma excelente amostra dessas férteis parcerias está agora disponível no mais recente título da extensa discografia do NWW, ‘‘The Swinging Reflective’’. Trata-se de um CD duplo que, em suas 14 faixas, reúne colaborações datadas de 1980 a 1999, incluindo duas composições inéditas: ‘‘Bone Frequency’’, com o Inflatable Sideshow, e ‘‘Generally Regarded as Safe’’, em parceria com o violinista Aranos. As outras 12 faixas da compilação: no disco 1, ‘‘Dead Roads’’ / ‘‘Cradle Your Snatch’’ / ‘‘The Little Seed’’ (1987), com a cantora Diana Rogerson, também conhecida sob os pseudônimos Crystal Belle Schrodd e The Termite Queen; ‘‘The Frightened City’’ (1991), com o baixista Tony Wakeford, do Sol Invictus; ‘‘The Window on the World’’ (1991), com a banda de Edward Ka-spel, Legendary Pink Dots; ‘‘Brained by Falling Masonry’’(1983), com Foetus, nome artístico de Jim Thirwell, ‘‘Panzer Ruin’’ (1990), com o grupo folk-apocalíptico-‘‘satanista’’ Current 93, liderado pelo mais frequente colaborador de Stapleton, o ótimo David Tibet; ‘‘Animal or Vegetable’’ (1993), com o Stereolab; e ‘‘Duelling Banjos’’ (1986), com William Benett, líder do Whitehose, grupo que, juntamente com o Throbbing Gristle, é um dos pioneiros do som industrial. No disco 2, novamente o Stereolab, na longa faixa ‘‘Simple Headphone Mind’’ (1995); ‘‘The Dead Side of the Moon’’ (1996), com David Tibet; ‘‘How to Destroy Angels’’ (1992), com o Coil; ‘‘Angle’’ (1995), com Chris Wallis e Pet Bog; e ‘‘Just What Do You Mean by ‘Antichrist’’, com Tiny Tim e o Current 93.
Quem conhece as radicais colagens sonoras do Nurse With Wound – como, por exemplo, as dos álbuns ‘‘Chance Meeting on a Dissecting Table of a Sewing Machine and an Umbrella’’, ‘‘To The Quiet Men from a Tiny Girl’’, ‘‘Merzbild Schwet’’ e ‘‘Homotopy to Marie’’ – pode estranhar o conteúdo de ‘‘The Swinging Reflective’’: dividindo espaço com o experimentalismo de Stapleton, há boas doses de música mais acessível – rock e pop, inclusive, porém de excelente qualidade –, especialmente nas faixas com Diana Rogerson, Stereolab (das bandas do disco, a mais conhecida no Brasil), Legendary Pink Dots e o power trio baixo-guitarra-bateria Inflatable Sideshow (que estreou em 98, na coletânea ‘‘Fextrot’’, cuja renda foi destinada ao custeio de um tratamento para o alcoolismo de John Balance, do Coil). Porém, mesmo nessas composições, Stapleton se encarregou de implodir a facilidade dos gêneros mais comerciais, imprimindo a marca da sua criatividade por meio de transições bruscas na direção da música abstrata, noisescapes e das colagens nas quais é um mestre. O resultado está bem definido no subtítulo do disco, ‘‘Favourite Moments of Mutual Ecstasy’’, e apresenta-se de forma coerente: se, por um lado, Stapleton mostra que poderia ser um músico e compositor mais acessível, por outro lado, não deixa dúvidas quanto ao fato de que, no fundo, está pouco interessado nisso. E também não há nenhuma dúvida quanto ao líder do NWW e seus amigos terem se divertido um bocado quando gravaram as inventivas parcerias presentes na coletânea.
P.S.: Para encomendar o álbum ‘‘The Swinging Reflective’’, minha sugestão é recorrer à World Serpent Distribution, de Londres (informações no site www.worldserpent.demon.co.uk). O preço não é abusivo, e a minha cópia (postagem e frete incluídos) chegou por menos de R$ 50,00. É bem verdade que a embalagem do disco é do tipo econômica (em papelão, formato envelope), o que exige cuidado para não riscar os CDs. Nem tudo é perfeito...