Parceiros embarcam na Nau dos Esquecidos
A César o que é de César. Esse ditado, na melhor tradição do rito romano, afirma que a justiça está na verdade. Só que, às vezes, a verdade é mascarada e fica oculta nos bastidores. Foi isso que aconteceu no Acústico, de Rita Lee na MTV.
Um show deste porte, com uma tremenda produção e veiculação nacional, e tendo como estrela Rita Lee, não poderia pisar na bola e deixar de dar os créditos autorais a todos os parceiros desta rockstar nas músicas selecionadas para o set list deste Acústico. Os profissionais responsáveis colocaram simplesmente os títulos das músicas em caracteres durante a apresentação.
A ausência do set list - com a relação das músicas e os nomes dos respectivos autores, entre eles Lee Marcicci, o fiel baixista, e o próprio Roberto de Carvalho, seu atual parceiro, marido e cúmplice em muitos sucessos - nos créditos finais do show, deixa uma lacuna neste trabalho de nossa roqueira maior que, desplugada, pecou pela omissão.
A César o que é de César, senão a coroa de louros vira coroa de espinhos. Desculpe, babe, mas não quero ficar de mal com você.
Rita Lee, junto com os dois irmãos Baptista, Serginho e Arnaldo, formava a Santíssima Comédia e a Divina Trindade da música elétrica brasileira, nos loucos anos 60. Na época, Arnaldo era o seu parceiro mais íntimo, o Número Um, e os três juntos eram Os Mutantes, verdadeiros gigantes que, com um único riff, derrubaram as colunas sagradas do templo da Música Popular Brasileira, num caldeirão poético chamado Tropicália. E, sobre aqueles escombros, com toda a sua irreverência e originalidade, fincaram fundo no seio da terra brasilis o Marco Zero do rock brasileiro.
Nos anos 70, enquanto Os Mutantes seguiam a trilha do Sol, Rita descobria que atrás do porto tinha uma cidade e que a Mamãe Natureza, esperta como ela só, podia aprontar futuramente outras entradas e bandeiras e continuar brincando e cantando no chuveiro com os novos companheiros do Tutti Frutti.
No meio desta alegre brincadeira, pintou algo mais sério, um novo parceiro que, empunhando uma guitarra De Luxe com personalidade, criou sua marca registrada e alavancou musicalmente, com harmonias básicas e inteligentes e riffs certeiros, os primeiros grandes sucessos da carreira de Lonely & Lovely Rita. Seu nome é Luiz Les Paul Carlini, a versão paulista e desvairada do Street Fighting Man londrino de Jagger & Richards - a poor boy playing in a rocknroll band.
Hoje, 30 anos depois, lembro da garota roqueira chamada Rita Lee, que gostava de pular a janela de seu quarto e passear pela noite como uma ovelha negra atrás do fruto proibido, para saboreá-lo no maior sarro no banco de trás do carro emprestado de papai ao som daquele tal de rocknroll.
Depois de fazer muitas rondas pelos telhados da vida, como uma verdadeira sister morphine, protagoniza, agora, um acústico comportado para a MTV e deixa estar, em vez de deixar sangrar - como se esperaria desta grande corista do rock - passando uma borracha sem alma nas páginas significativas de um passado marcante para cantar confortável - Desculpe o Auê.
Para o Arnaldo e o Serginho, os elétricos Mutantes, ficou o registro acústico da Balada do Louco, um eco manso e distante da versão original - nascida na cauda de um cometa e batizada de fumaça dos baurets - que até hoje simboliza a balada de todos os loucos mutantes nesta louca e ambulante, mas também essencial, vida de roqueiro brasileiro.
Para o Luiz Carlini, the real guitar hero & riffer man, a espinha dorsal do Tutti Frutti, o verdadeiro anjo da guarda descalço do rock nacional, proponho um trocadilho final para derrubar de vez os suspensos Jardins da Babilônia - melhor momento do show - e, em tempo, salvar os seus créditos musicais, autorais e históricos de sua parceria com Rita. Arnaldo, Serginho e Carlini são os três tripulantes da Nau dos Esquecidos, que um dia navegaram nas ondas elétricas da unplugged Rita Lee.
Que loucura, Carlini, só faltou você.Cristina Granato/DivulgaçãoCena do show Rita Lee Acústico, na MTVCarlão Gaertner





