O professor de Teoria Psicanalítica Luiz Alfredo Garcia-Roza estreou na ficção com o pé direito. Responsável por uma extensa produção acadêmica - que inclui oito livros na área psicanalítica - ele não se arrepende de ter transformado a antiga paixão por pulp fictions na aventura literária do detetive Espinosa. Vencedor dos prêmios Nestlé e Jabuti de 97, Luiz Alfredo anuncia que o protagonista de ‘‘O Silêncio da Chuva’’ está de volta em ‘‘Achados e Perdidos’’. O herói também chega ao cinema pelas mãos de Murilo Salles, o mesmo de ‘‘Faca de Dois Gumes’’ e ‘‘Como Nascem os Anjos’’. ‘‘Nunca passou pela minha cabeça que isso poderia acontecer um dia’’, espanta-se.
Antes mesmo de ‘‘O Silêncio da Chuva’’ ganhar prêmios e ter direitos vendidos para o cinema, Luiz Alfredo já cogitava escrever uma nova aventura do detetive Espinosa. Publicado pela Companhia das Letras, ‘‘Achados e Perdidos’’ começa quando Vieira, um delegado aposentado, descobre que a própria amante foi encontrada morta, estrangulada com o cinto. Por conta de uma indesejada amnésia alcoólica, Vieira não consegue reconstituir a noite do crime e pede ajuda a um velho conhecido. ‘‘O grande barato do Espinosa é ser um detetive light. Não é do tipo de sujeito que sai por aí distribuindo socos e pontapés’’, defende.
Na segunda incursão do autor pelo gênero policial, o introspectivo detetive Espinosa foi promovido a delegado. Ele deixou o posto na Praça Mauá, no Centro do Rio, para assumir uma delegacia em Copacabana. Aos 62 anos, Luiz Alfredo tem se mostrado um aluno aplicado. Para escrever ‘‘Achados e Perdidos’’, por exemplo, frequentou alguns dos cenários mais corriqueiros da literatura policial brasileira. Ao lado de um amigo que trabalha com o Direito Criminal, ele percorreu delegacias de polícia, conversou com peritos e delegados e assistiu a três autópsias no Instituto Médico Legal, no Rio. ‘‘Para quem não está acostumado, é uma experiência nauseante. Não recomendo a ninguém’’, ressalta.
Autor de importantes títulos nos meios acadêmicos - como ‘‘Freud e o Inconsciente’’ e ‘‘Palavra e Verdade em Psicanálise’’ - Luiz Alfredo admite que o sucesso de ‘‘O Silêncio da Chuva’’ consolidou a decisão de se dedicar em tempo integral à literatura policial. E avisa que está se desligando da Universidade Federal do Rio de Janeiro após 35 anos de vida acadêmica. ‘‘Já está na hora de passar o bastão para os mais novos’’, justifica. Antes disso, porém, Luiz Alfredo entrega o quarto e último volume de ‘‘Introdução à Metapsicologia Freudiana’’ à Editora Zahar. ‘‘A volta do Espinosa às livrarias, porém, é praticamente certa’’, brinca.
A idéia original de Luiz Alfredo Garcia-Roza é de manter a simpática figura do detetive Espinosa também nos próximos livros. O autor, no entanto, não descarta a possibilidade de restringir o personagem a umas poucas e boas participações especiais. A hipótese de dar um sumiço temporário no delegado também não está descartada. ‘‘Ele vai ter de dividir o centro das atenções com outros personagens’’, garante. Por conta disso, Luiz Alfredo cogita retomar alguns dos personagens que marcaram ‘‘O Silêncio da Chuva’’, como Welber, o detetive baleado no romance de estréia, e Kika, a pintora que vende quadros na Avenida Atlântica, em Copacabana.
Enquanto elocubra as próximas aventuras do agora delegado Espinosa, Luiz Alfredo esfrega as mãos ao falar da adaptação de ‘‘O Silêncio da Chuva’’ para o cinema. A primeira versão do roteiro foi escrita pelo próprio Murilo Salles e, agora, uma segunda versão já está sendo burilada pelo roteirista João Emanuel Carneiro, o mesmo de Central do Brasil. ‘‘A idéia é burilar o roteiro ao máximo e rodá-lo no primeiro semestre do ano que vem’’, calcula Murilo Salles. Mais que satisfeito com a nova empreitada, Luiz Alfredo até sugere o nome do ator José Mayer para o papel de Espinosa. ‘‘O problema é que ele já interpretou um comissário antes na minissérie Agosto. Não sei se isso poderia atrapalhar o projeto’’, observa.

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