Parceiros do crime
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de agosto de 1998
André Bernardo Cult Press 
O professor de Teoria Psicanalítica Luiz Alfredo Garcia-Roza estreou na ficção com o pé direito. Responsável por uma extensa produção acadêmica - que inclui oito livros na área psicanalítica - ele não se arrepende de ter transformado a antiga paixão por pulp fictions na aventura literária do detetive Espinosa. Vencedor dos prêmios Nestlé e Jabuti de 97, Luiz Alfredo anuncia que o protagonista de O Silêncio da Chuva está de volta em Achados e Perdidos. O herói também chega ao cinema pelas mãos de Murilo Salles, o mesmo de Faca de Dois Gumes e Como Nascem os Anjos. Nunca passou pela minha cabeça que isso poderia acontecer um dia, espanta-se.
Antes mesmo de O Silêncio da Chuva ganhar prêmios e ter direitos vendidos para o cinema, Luiz Alfredo já cogitava escrever uma nova aventura do detetive Espinosa. Publicado pela Companhia das Letras, Achados e Perdidos começa quando Vieira, um delegado aposentado, descobre que a própria amante foi encontrada morta, estrangulada com o cinto. Por conta de uma indesejada amnésia alcoólica, Vieira não consegue reconstituir a noite do crime e pede ajuda a um velho conhecido. O grande barato do Espinosa é ser um detetive light. Não é do tipo de sujeito que sai por aí distribuindo socos e pontapés, defende.
Na segunda incursão do autor pelo gênero policial, o introspectivo detetive Espinosa foi promovido a delegado. Ele deixou o posto na Praça Mauá, no Centro do Rio, para assumir uma delegacia em Copacabana. Aos 62 anos, Luiz Alfredo tem se mostrado um aluno aplicado. Para escrever Achados e Perdidos, por exemplo, frequentou alguns dos cenários mais corriqueiros da literatura policial brasileira. Ao lado de um amigo que trabalha com o Direito Criminal, ele percorreu delegacias de polícia, conversou com peritos e delegados e assistiu a três autópsias no Instituto Médico Legal, no Rio. Para quem não está acostumado, é uma experiência nauseante. Não recomendo a ninguém, ressalta.
Autor de importantes títulos nos meios acadêmicos - como Freud e o Inconsciente e Palavra e Verdade em Psicanálise - Luiz Alfredo admite que o sucesso de O Silêncio da Chuva consolidou a decisão de se dedicar em tempo integral à literatura policial. E avisa que está se desligando da Universidade Federal do Rio de Janeiro após 35 anos de vida acadêmica. Já está na hora de passar o bastão para os mais novos, justifica. Antes disso, porém, Luiz Alfredo entrega o quarto e último volume de Introdução à Metapsicologia Freudiana à Editora Zahar. A volta do Espinosa às livrarias, porém, é praticamente certa, brinca.
A idéia original de Luiz Alfredo Garcia-Roza é de manter a simpática figura do detetive Espinosa também nos próximos livros. O autor, no entanto, não descarta a possibilidade de restringir o personagem a umas poucas e boas participações especiais. A hipótese de dar um sumiço temporário no delegado também não está descartada. Ele vai ter de dividir o centro das atenções com outros personagens, garante. Por conta disso, Luiz Alfredo cogita retomar alguns dos personagens que marcaram O Silêncio da Chuva, como Welber, o detetive baleado no romance de estréia, e Kika, a pintora que vende quadros na Avenida Atlântica, em Copacabana.
Enquanto elocubra as próximas aventuras do agora delegado Espinosa, Luiz Alfredo esfrega as mãos ao falar da adaptação de O Silêncio da Chuva para o cinema. A primeira versão do roteiro foi escrita pelo próprio Murilo Salles e, agora, uma segunda versão já está sendo burilada pelo roteirista João Emanuel Carneiro, o mesmo de Central do Brasil. A idéia é burilar o roteiro ao máximo e rodá-lo no primeiro semestre do ano que vem, calcula Murilo Salles. Mais que satisfeito com a nova empreitada, Luiz Alfredo até sugere o nome do ator José Mayer para o papel de Espinosa. O problema é que ele já interpretou um comissário antes na minissérie Agosto. Não sei se isso poderia atrapalhar o projeto, observa.


