Paraty pode ter título inédito
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de setembro de 2001
Luciana Garbin 
A cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, está perto de conseguir um feito inédito: tornar-se o primeiro patrimônio misto da humanidade no Brasil. Se conseguir cumprir as exigências feitas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o município conhecido por seus casarões coloniais, ilhas e reservas ecológicas terá proteção mundial tanto seus bens culturais quanto naturais presentes na lista, que já congrega 690 sítios.
Em julho, o representante da Unesco no Brasil, Jorge Ricardo Wertheim, visitou o município. Em seguida, o presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Anthony Garotinho e os ministros da Cultura e do Meio Ambiente receberam cartas com detalhes da candidatura a patrimônio misto e pedidos de apoio.
A intenção política é clara. Para ser elevada à condição de Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade, Paraty precisa não só mostrar o que tem de bonito e histórico. Terá também de resolver de problemas particulares, como assoreamento de rios da região e fiação elétrica exposta no centro antigo, deficiências já conhecidas da maioria dos municípios brasileiros. Entre eles, estão a falta de saneamento básico, carências na saúde e ausência de plano diretor.
''É restritivo. Ou se faz o esgoto, se colocam os cabos de luz debaixo da terra e a saúde em ordem, ou se esquece. Tudo está montado como uma pirâmide virada para baixo onde a base é o plano diretor. Esse título nos interessa principalmente porque, para concedê-lo, a Unesco exige a realização das obras tão necessárias à nossa cidade'', resume o presidente do Comitê Executivo Pró-Unesco, Gleyson Serra Rocha. Na prática, isso significa que o município precisa de vontade política, financiamentos e linhas de crédito especiais dos governos estadual e federal e ajuda da comunidade. Dos três, esse último é o que está mais adiantado.
Tradicionalmente mobilizada nas questões comunitárias, a sociedade de Paraty tem há décadas o costume de debater assuntos públicos. No ano passado, foi criado o Fórum de Desenvolvimento Sustentável, com reuniões mensais. Quando há temas polêmicos em pauta, como problemas ambientais e fundiários, os debates se transferem para o salão da Câmara Municipal e pessoas chegam a viajar horas de barco para participar.
Para atender às exigências da Unesco e entregar o dossiê a tempo, serão criados núcleos de trabalho e a campanha Paraty, Teu Patrimônio é Humanidade, para conscientização da população. ''Tirar plaquinhas e esconder o lixo quando vem a Unesco não resolve. O que vai preservar o patrimônio são ações coerentes, com a comunidade sabendo o que está ocorrendo'', acredita uma das participantes, Isabel Costa Cermelli, do Projeto de Revitalização da Borda D'Água.
Também deve influir a maneira como a cidade souber aproveitar seus recursos. Fundada na primeira metade do século 16, Paraty manteve preservado o mais perfeito conjunto arquitetônico colonial brasileiro. Suas ruas de pedras perpetuam a época do Brasil-Colônia, quando o município chegou a ser o segundo porto mais importante do País, depois do Rio de Janeiro. Ali era embarcado o ouro que seguia por Portugal. O local também ficou famoso pelas festas típicas e religiosas, o grande movimento de homens e bens de consumo e a pinga produzida artesanalmente em seus alambiques (leia nesta página).
A cidade acumula títulos. Em 1945, Paraty foi considerada Monumento do Rio Janeiro. Em 1966, Monumento Nacional. Seis anos depois, virou parte do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Em 1983, uma parcela de seu território tornou-se Área de Proteção Ambiental (APA) do Cairuçu.
Mais tarde, seria ainda Área de Proteção Ambiental da Baía de Paraty, por uma lei municipal, Estação Ecológica dos Tamoios, Reserva Biológica da Juatinga, Área de Proteção Ambiental da Baía de Paraty, Reserva da Biosfera da Mata Atlântica do Rio de Janeiro e Área Estadual de Lazer do Paraty Mirim. Em 1993, a Unesco reconheceu dentro do município a Reserva Mundial da Biosfera.
Entre os cinco sistemas naturais considerados Patrimônio Natural pela Constituição federal, três incluem territórios de Paraty: a Mata Atlântica, a Serra do Mar e a Zona Costeira. Juntos, eles contabilizam 300 praias, 65 ilhas, inúmeras comunidades caiçaras, um quilombo e duas reservas indígenas.
Em 1983, Paraty já tinha tentado ser patrimônio cultural da humanidade, mas foi desclassificada por não seguir o protocolo exigido pelas autoridades. Já o Parque Nacional da Serra da Bocaina, que ocupa boa parte do município, é considerado patrimônio natural.


