'Parasita', o filme-evento do ano
A produção sul-coreana pode se tornar a primeira em língua não inglesa a ganhar o Oscar de melhor filme neste domingo (7)
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de fevereiro de 2020
A produção sul-coreana pode se tornar a primeira em língua não inglesa a ganhar o Oscar de melhor filme neste domingo (7)
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Desde que ganhou a Palma de Ouro (a mais prestigiosa premiação intelectual do planeta) no último Festival de Cannes, “Parasita” tem sido o favorito no consenso entre críticos, público e júris de premiações diversas, sem o marketing da presença de atores internacionais imediatamentre reconhecíveis. E define a aclamação plena de seu diretor, Bong Joon Ho, que há mais de uma década desfruta de alta estima nos meios cinéfilos.
O filme-sensação, recheado de ótimas novidades em seu discurso e sua forma, pode entrar para a história neste domingo (7), quando disputa seis estatuetas: melhor filme (entre os nove nominados, todos com DNA anglo-saxão), direção, roteiro original e longa-metragem em língua não inglesa. Existe algum consenso sobre o que é exatamente o filme? É um thriller? Uma comédia sombria? Um melodrama familiar? Um comentário social? Ou tudo isso, somado? Até o significado do título está ainda em debate, lembrando uma criação anterior de Bong, “O Hospedeiro”, lançado em 2007.

Sombrio, hilário, emocionante e particularmente desconcertante, “Parasita” (U$ 174 milhões de bilheteria, desde seu lançamento em Seul, em maio do ano passado), antes de mais nada é uma fábula sobre a desigualdade. A filmografia de Bong Joon Ho está centrada na crítica ao sistema e ao poder estabelecido, nas reivindicações dos marginais e deserdados e na reciclagem dos postulados do cinema dedicado ao conflito de classes. O momento social crispado, vivido pela população planetária, facilitou a aproximação e a identificação direta das plateias com esta família de excluídos do filme, que tenta sobreviver como pode e que utiliza artifícios diversos para se infiltrar na mansão do grupo familiar abastado e se rebelar contra sua posição servil.
(Não foi por acaso que outra metáfora cruel do mundo em que vivemos, com um substrato de insatisfação semelhante e com uma crítica anti-sistema como a proposta por “Joker”, ganhou em outro dos grandes festivais, o de Veneza, ano passado.)
Há várias características favoráveis: o diretor Bong tem estilo bem próprio e definido, como um bom autor que se preza; mas seus filmes também sempre foram marcadamente populares, acessíveis ao grande público. Entre suas marcas peculiares se pode contar o uso de metáforas para falar sobre os problemas do mundo em que vivemos; o engenhoso e nada ortodoxo mix de gêneros (o triunfo é da comédia negra e do elemento surpresa) e de personagens, em geral lutando contra adversidades. Seu público alvo é aparentemente adulto, mas ele conecta com todas as gerações, especialmente as mais novas, convertendo-se em conteúdo viral graças ao diálogo constantes com as redes sociais. Através do twiter se popularizou o hashtag #BongHive para ampla divulgação do filme e de memes das cenas mais impactantes. Apesar desse sucesso, Bong diz sempre que, quando estava filmando, achou que ninguém iria gostar do filme por ser esquisito e extravagante.
Finalmente, um dado simples, mas extremamente relevante. Muitos diretores, Almodóvar por exemplo, utilizam o elemento local não apenas para obter vantagem da natureza pitoresca, mas também para mostrar que os problemas de determinado lugar são os mesmos de qualquer outro. Bong fala das injustiças que castigam a sociedade coreana, da falta de oportunidades, do desemprego e do abismo social entre ricos e pobres. O filme abriu naquele país um debate político sobre distribuição de riqueza, privilégios, corrupção e frustração da classe trabalhadora, do homem comum. Não é o mesmo sentimento, de cansaço e náusea que bate na maior parte do mundo? Isto é um ponto mundo sério e relevante, mas ao contrário de outros conterrâneos que estão fazendo filmes na mesma vertente, no caso do “Parasita” de Bong há uma vontade de se divertir com os elementos narrativos, o roteiro e a linguagem cinematográfica. E para isso ele utiliza elementos imediatamente reconhecíveis (e acessíveis) por todos os espectadores, desde pesquisar wi-fi gratuito pelos cantos, assistir a tutoriais do Youtube ou aprender a fazer qualquer coisa. Sem que isso diminua o impacto de sua denúncia.


