A população de Paranaguá, abatida com o recente surto de cólera, levanta a auto-estima e faz uma reforma geral. A cidade tropeça satisfeita nos montes de terra, pedras, tijolos e muita lixa para descobrir suas marcas mais antigas.
Como num imenso canteiro de obras, as ruas de Paranaguá já começam a mostrar cara nova a partir do que existe de mais antigo. E o que começa a aparecer desperta um sentimento de orgulho, sentido em cada esquina pelos filhos desta que é a primeira cidade do Paraná.
O esforço em preservar a memória coletiva, de procurar em cada parede, porta, janela, calçada, telhado, ladrilho hidráulico, gradil, piso e pedra a história de uma cidade e de uma nação, passa pela restauração e cada cidadão transforma-se em pesquisador da história.
Kraw PenasO arquiteto Luiz Marcelo Bertoli de Mattos, que orienta as restaurações: ‘‘A falta de política de preservação possibilitou a dilapidação destes patrimônios’’A Prefeitura de Paranaguá orienta atualmente os trabalhos de restauração em cerca de 16 prédios históricos entre os mais de 350, em toda cidade. Mais de 30 imóveis já foram recuperados. Para conscientizar os proprietários da importância das restaurações, a prefeitura contratou o arquiteto Luiz Marcelo Bertoli de Mattos, responsável pelo Patrimônio Histórico.
‘‘A recuperação da cidade começou com a construção da Praça 29 de Julho. O que antes era lixo, entulho e sucata, hoje virou ponto de encontro com uma vista especial para o casario e para o arquipélago’’, reconhece Luiz Marcelo. Com área de 30 mil metros quadrados, a praça abriga também o Mercado de Peixe, Mercado de Artesanato e Praça de Alimentação.
Foi nas margens do Rio Itiberê que a cidade começou a desenvolver-se, em 1648. Na Rua General Carneiro - herói da Revolução Federalista - estão as primeiras casas construídas em estilo colonial (século 18) e eclético (século 19).
‘‘Este e os prédios do centro antigo são os conjuntos históricos mais relevantes do Sul do País. A falta de política de preservação possibilitou a dilapidação deste patrimônio, num país onde o novo é a comprovação do progresso, em detrimento do testemunho da cultura’’, constata Bertoli. O programa de recuperação teve início em 1993, mas agora tomou impulso com a participação da comunidade.
O empresário Adelino Pereira Moreira mostra orgulhoso o seu imóvel restaurado: ‘‘Os prédios estavam abandonados e hoje chamam a atenção de turistas e moradores’’Pela primeira vez, os proprietários estão sentindo que a responsabilidade da preservação da História também é deles. A prefeitura incentiva com planos de descontos progressivos do IPTU e com a assistência e acompanhamento técnico gratuitos. ‘‘Treinamos a mão-de-obra e o que antes era considerado bobagem, hoje ganha status de raridade histórica’’, diz o arquiteto.
Essa empolgação pode facilmente ser percebida andando-se pela cidade. A cada esquina Luiz Marcelo é parado e questionado sobre o desenho de uma janela, se já chegou aquela porta igual à original ou sobre a cor da pintura de uma casa. Além de receber convites para conhecer outros prédios e ganhar quitutes de presente ‘‘como antigamente’’.
O empresário Adelino Pereira Moreira, está restaurando seu segundo imóvel da Rua General Carneiro. ‘‘Investi mais de US$ 200 mil dólares. Os prédios estavam abandonados e hoje chamam a atenção de turistas e moradores, que param na fachada para tirar fotografias’’, conta.
De dentro do balcão o comerciante Nicolau Borges pergunta pelo desenho da sua ‘‘janela cheia de história’’. Ele também restaura dois prédios, num deles vai morar com a família e no outro vai instalar seu comércio. A pensionista Neli Schmidt Rocha conta orgulhosa que ‘‘pintar minha casa foi a realização do meu sonho dourado’’.
‘‘Estávamos perdendo tudo. Se não fizéssemos esta recuperação imediatamente, em menos de 20 anos teríamos perdido mais da metade deste pouco. Muitos imóveis estão reduzidos a cascas de ovos. Todo cuidado é pouco, mas é preciso adequar os edifícios históricos à vida moderna, sem que percam suas características originais. Além disso, temos de equilibrar as reformas no orçamento de cada proprietário’’, analisa Bertoli.

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