Ser convidado para cantar em óperas, dar autógrafos para o público, conhecer renomados maestros, ser ouvido por agentes e diretores artísticos de teatros, e até ganhar bolsas de estudos para aprimorar técnica vocal no exterior. Estas são algumas das vantagens e benefícios de que um cantor lírico pode usufruir ao ser classificado para cantar em grandes concursos do gênero.
  Nos próximos dias, cinqüenta e um candidatos terão a oportunidade de mostrar seu talento vocal nas etapas eliminatórias do 8º Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão, que acontece de terça-feira a domingo, em Belo Horizonte. Ao todo, 25 homens e 26 mulheres vão disputar R$ 68 mil em prêmios, além de troféus, placas e diplomas.
  O nome do prêmio é uma homenagem à soprano brasileira mundialmente consagrada, que debutou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro aos 18 anos e dedicou sua vida ao canto, a contragosto dos pais. Com muita perseverança, investiu na carreira, estudou na Europa e fixou residência nos Estados Unidos, onde tornou-se a única voz lírica brasileira mundialmente aclamada, ao integrar a Metropolitan Opera de Nova Iorque.
  O fato de Bidu Sayão (1902-1999) emprestar seu nome ao prêmio é um símbolo das possibilidades que um cantor tem de alavancar sua carreira a partir do estímulo e da exposição que os concursos proporcionam. Entre os classificados desta edição, duas candidatas são paranaenses. Fernanda Stecca, a única soprano ligeiro da competição, é natural de Umuarama e mora em Campinas, no Estado de São Paulo. A segunda candidata é a mezzo-soprano Ariadne Oliveira, de Curitiba.
  A notícia da classificação agitou as vidas das cantoras. Fernanda Stecca está tão ocupada com aulas e preparativos que sequer consegue tempo para atender aos telefonemas. O panorama não é diferente para a curitibana Ariadne Oliveira, que realiza diariamente uma série de ensaios. ‘‘É preciso muita responsabilidade, dedicação, disciplina e preparo’’, comenta.
  Com experiência em festivais (foi premiada em cinco), Ariadne lembra que a concorrência não é o maior dos obstáculos, mas sim a ansiedade. ‘‘Acontece com todos os cantores. É impossível não ficar nervosa. Antes de subir ao palco, dá aquele frio na barriga, mas quando chega a hora de começar, eu me concentro e uso essa energia no meu personagem’’, revela.
  A cantora cita que os concursos de canto são semelhantes entre si. Em geral o corpo de jurados é formado por profissionais da lírica internacional, maestros e diretores de cena. Muitas vezes, não basta apenas ter um vocal aprimorado. ‘‘O caráter técnico é levado em conta, mas também há critérios subjetivos, como a apresentação do cantor, a presença de palco. É preciso se expressar bem, interpretar o personagem’’, explica.
  Para quem imagina que uma cantora bem sucedida deve demonstrar seu talento com a voz desde criança, Ariadne é uma prova contrária. O início de sua carreira artística foi como bailarina. Certo dia pensou em se dedicar a outra atividade e se interessou pelo canto. Participou de alguns corais, entre eles o do Teatro Guaíra.
  ‘‘Colegas do teatro diziam que eu tinha uma voz diferente, que eu era uma mezzo-soprano de verdade e recomendavam que eu estudasse artes. Acabei largando o curso de psicologia para cantar.’’ Ariadne se graduou em canto pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, onde teve como professora a renomada soprano Neyde Thomas, carinhosamente lembrada como sua tutora.
  Desde então, como toda cantora lírica que se dedica à arte, começou a participar de festivais. ‘‘Através dos concursos, você vê o que o mercado está pedindo. Às vezes acontece de você ter um bom trabalho, mas não ter o perfil que o juri procura, de não estar no critério’’.
  Independente de conquistas, os festivais abrem portas para o artista. ‘‘Maestros conheceram meu trabalho, pude fazer mais audições e fui convidada para outros trabalhos. É algo a mais que se ganha, você é mais ouvida nas casas e teatros’’, orgulha-se. A competição mais significativa de sua carreira foi o concurso Vitae, em que foi contemplada com uma bolsa para aperfeiçoar seus estudos de canto em Milão, na Itália.
  Graças ao prêmio, residiu na Europa de 2005 a 2007 e foi aluna da mezzo-soprano Bianca Maria Casoni (docente da Accademia de Teatro Alla Scala di Milano). Também teve aulas em Berlim, com o barítono Roman Trekel, professor da Hochschule für Musik Hanns Eisler. ‘‘Morar no exterior é uma experiência inigualável. Você conhece outras culturas, tem contato com os melhores do mundo e cresce como pessoa’’, lembra.
  Quanto ao panorama do canto lírico no Brasil, Ariadne tem uma visão otimista. Em Curitiba, desenvolve intensa atividade musical e se dedica a repertórios de câmera e operístico, apreentando-se regularmente em recitais e montagens de óperas. Nesta última categoria, contam em seu repertório personagens como Annina (La Traviata, de Verdi), Lola (Cavalleria Rusticana, de P. Mascagni) e Maddalena (Rigoletto, de Verdi). A média de trabalho é de pelo menos duas óperas por ano.
  Fora da capital, se apresenta em outras cidades paranaenses e em outros Estados. ‘‘No Rio de Janeiro e em São Paulo a estrutura é maior, até pelo tamanho das cidades. Lá a prioridade é dada para as cantoras que trabalham com agências. É uma tendência mundial, uma espécie de selo de qualidade. No momento estou sem agente, mas pretendo conseguir um o quanto antes’’, diz Ariadne, que também revelou que tem planos de voltar para a Europa.

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