PARANÁ TEM BOA SAFRA DE CURTAS
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Os cineastas de Curitiba não são de alardear seus projetos, mas a partir de março prometem movimentar o meio cultural com as estréias de seus filmes e vídeos, todos em curta-metragem. Cada qual ajeita-se como pode com os parcos recursos, porém a ordem é ir para a frente.
Tiomkim, premiado há poucos anos com Rainha do Papel, um sensível perfil sobre Efigênia, ex-bóia fria que trabalha com papéis, prepara-se para as tomadas de Nossos Gestos, Nossas Almas.
Cinco mulheres atuarão nesse vídeo: Regina Benitez (contista premiadíssima, mas que se esconde atrás de sua literatura), a fotógrafa Mila Jung, a pianista Roseane Lovato, a atriz Odelair Rodrigues, e a escultora Ione Ikematsu. O ponto em comum entre elas é que utilizam as mãos como forma de trabalho e instrumento para materializar suas emoções.
Não farei um documentário, avisa o moço. O vídeo terá 15 minutos de duração e caberá três minutos a cada uma para que falem de si, da vida, da arte, das inquietações e das plenitudes. Será um breve monólogo interior de vida, define o cineasta. O vídeo será conduzido por elas, que dirão o que é bom e ruim nas áreas em que atuam.
O projeto só foi viabilizado devido ao apoio financeiro da Faculdade Essei que também ajudou Rainha de Papel a chegar às telas , embora conte com ainda com as colaborações da Secretaria de Cultura e Cinemateca de Curitiba. A previsão é de que estréia aconteça em abril.
Terras prometidas
Fernando Severo direcionou suas câmaras para as ruínas de dois santuários nascidos do desatino de pobres lunáticos um existiu em Colorado (noroeste do estado) e outro em Guarapirama (Norte Pioneiro). Visionários não faz um relato da vida desses agricultores, mas procura entrar no universo místico que sustentou esses santuários, erguidos à custa de sacrifício e devoção com o intuito de agradar a Deus.
Warikoda, que morava em Guarapirama, dedicou parte de sua vida a erguer ídolos orientais. A maior parte está destruída, pelas intempéries do tempo e pela ação predadora dos homens. Entre as ruínas sobressai-se ainda a imagem de um buda com cinco metros de altura.
Em Colorado restam os vestígios do que foi Aluminosa, que o agricultor José de Freitas Miranda fez especialmente para receber Deus e o séquito de anjos, arcanjos, querubins e serafins, no Dia do Juízo. Miranda, assim como Warikoda, acreditava ser um escolhido, e ter ouvido vozes que ordenavam a feitura das obras.
Quando Aluminosa ainda existia, três tronos rústicos eram, aos olhos de Miranda, as peças mais importantes do lugar. O do centro seria ocupado por Deus, o da esquerda por Jesus e o da direita por ele, José de Freitas Miranda. Sob seus pés estariam as milhares de almas aflitas ansiando pelo perdão e a vida eterna.
Será um documentário poético, adianta Fernando Severo sobre o curta que tem na direção de fotografia Eloísa Passos, profissional paranaense que há anos vive na ponte Rio-São Paulo. Ela tem grande domínio técnico e sensibilidade para captar o que quero, resume o cineasta. O filme está em fase de finalização.
Polícia, santo e fuga
Beto Carminati cuida dos detalhes finais de A Deus Menino, com roteiro de sua autoria, que será rodado em fevereiro. Nem tudo pode ser dito sobre o filme, mas o enredo trabalha com realismo e fantasia. Meninos de rua entram numa igreja, roubam uma imagem e são surpreendidos pela polícia.
Começa uma perseguição, que desencadeará uma série de consequências imprevistas. A observação da tipologia humana é muito rica nesse filme, segundo o produtor executivo Fernando Severo.
Ciúmes e paranóia
Também em fevereiro na primeira quinzena , Luciano Coelho dá início às filmagens do curta O Fim do Ciúme, baseado num conto de Marcel Proust. A produção executiva estará com Fernando Severo, e o roteiro levará as assinaturas de Coelho com Edson Bueno.
O enredo sustenta-se no relacionamento de um jovem casal, que se poderia chamar de perfeito. Tudo corre às mil maravilhas até que vem à tona uma história antiga do envolvimento da moça com outro homem. Aquilo que poderia ser somente uma citação do passado, transforma-se numa espécie de chaga na alma do rapaz.
A obsessão transforma-se em paranóia, segundo o diretor. Completamente absorvido por seus pensamentos, o moço é atropelado na rua e, levado ao hospital, reflete sobre tudo aquilo que viveu de desilusão e dor, antes que a morte traga-lhe a paz.
O cego cantador
Em 1823, em Registro (vilarejo pertencente à Antonina), nascia um menino cego. Morreu quase na virada do século, levando para a cova o nome que carregou por toda a vida: Bento Cego. Repentista e andarilho, é considerado o primeiro poeta popular do Paraná. Essa história estará sendo narrada em Bento Cego, curta em 35 mm com direção de Paulo Friebe e Geraldo Pioli.
Devido a vários e decisivos fatores o personagem central da fita é vivido pelo violeiro Alecir Carrigo. Ele tem o biotipo que a gente procurava, cabelo comprido, meio apaixonado por Bento e, por coincidência, nasceu em Antonina, explica Pioli. Ficou legal a figura dele; a gente sente que ele incorporou o personagem.
Como o poeta passou toda a existência cantando pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul criou em torno de si a aura do mito. De acordo com pesquisas feitas sobre suas andanças, o repentista jamais perdeu um desafio sequer, e houve episódios em que chegou a duelar com três cantadores ao mesmo tempo. O ator Emilio Pitta e os músicos Oswaldo Rios, Rodrigão e Ferreira (ambos do Maxixe Machine) também atuam no filme.
Religião na aldeia
Domingo passado Geraldo Pioli esteve em São Paulo para cuidar da montagem e mixagem de Aldeia, curta-metragem em 35 mm que reflete a questão da cultura e a aculturação, sem partir para o baixo astral. Não chega a ser uma comédia, afirma o diretor Geraldo Pioli, mas tem um humor leve.
A cena transcorre por volta de 1700, entre um padre (Willy Schumann) e um grupo de índios. Ele quer que os alienígenas abandonem a tradição secular e passem a aceitar a nova crença. É uma imposição traumática, mas o insólito leva ao riso. O filme conta com a participação de cerca de 30 índios, do Paraná e São Paulo.
Inspiração da infância
O cineasta Nivaldo Lopes Palito passou toda a infância no sítio, e não se esquece das reuniões no terreiro de casa, onde a criançada e mesmo os adultos, ficavam à volta do avô, em torno de uma fogueira, para ouvir seus causos. Não raro, falava-se de episódios antigos de assombrações.
Inspirado nessas sessões que tinham muito de magia e encantamento, Palito rodou Logo Será Noite, média metragem em fase de finalização. Emílio Pitta, um dos atores mais solicitados pelos diretores, vive o ancião contador de histórias.
Adriano Smaniotto, Rui Sutil e Letícia Moreira são os jovens que o rodeiam. À medida que cada história é contada, estes passam a se identificam com elas. As pessoas vão se surpreender com o final do final, promete Palito.
Crônica do cotidiano
Elói Pires Ferreira tem um olhar sensível sobre as pessoas do povo; quem assistiu a Vamos Juntos Comer Defunto e o premiado Valdir e Rute, sabe o tom de crônica singela que ele dá a partir de fatos corriqueiros. Nessa mesma linha virá Polaco da Nhanha, que deverá ser rodado possivelmente no decorrer deste semestre.
Polaco da nhanha era uma expressão pejorativa muito comum entre os curitibanos, em décadas passadas, que servia como provocação a quem tivesse os cabelos claros. O curta vai discorrer sobre a imigração, através do diálogo entre um avô e seu neto, num ano qualquer no início dos 60. A linguagem entre os dois será bem humorada; esse vai ser o eixo do filme, conta o diretor.
Marginália em destaque
Os Marginais. Esse é o título do vídeo que o diretor Estevão A.S. está trabalhando, em parceria com Tionkim, e tem como personagens principais o poeta e bêbado Batista de Pilar, o músico Ademir Plá (todos os domingos tira seu violão na feirinha do Largo da Ordem e canta até não ter mais ninguém) e o artista plástico Edilson Viriato. Este último é o único dos três a ter somente o seu trabalho marginal, e não ele próprio.
As gravações de Os Marginais tiveram início há algumas semanas, mas é complicada a relação com os artistas envolvidos. Batista de Pilar costuma falar muito quando a câmara está desligada, e ficar mudo quando ela entra em ação. Ademir Plá tem suas peculiaridades e foi preciso muito esforço até Estevão ganhar sua confiança. Seja como for, a trilha sonora será sua.
Edilson Viriato, que chama mais a atenção na Europa que em Curitiba, livra os cineastas do martírio. Os três estão sendo fotografados por um equipamento super V, o autêntico marginal do vídeo. Trabalhos profissionais são feitos com Beta ou U-Matic, comenta Estevão.
A linguagem do trabalho seguirá dentro deste terreno onde nada é asséptico, mas carregado de emoções suicidas. Vai ser uma coisa diferente; o vídeo não terá linearidade, com começo, meio e fim. Será uma coisa bem louca, adianta o diretor. Mas se na tela estarão projetadas a pintura, a literatura e o cinema, por que o cinema ficou de lado? Não ficou, responde Estevão. Marginal é a câmara de Tionkim, cineasta com um pé na marginalidade, brinca o diretor, homenageando o amigo.A partir de março, os cineastas curitibanos começam a mostrar os curta-metragens que estão em fase de produção. Há filmes para todos os gostos
DivulgaçãoCena do filme Bento Cego: o personagem, repentista e andarilho, é considerado o primeiro poeta popular do ParanáDivulgaçãoCena do filme Aldeia: curta trata da aculturação, mostrando a imposição religiosa com toque de humorDivulgaçãoRuínas de Aluminosa: a cidade prometida é tema de documentário poético de Fernando Severo





