Nenhum músico do Sul do Brasil foi selecionado para o Festival de Música da Rede Globo. Em vez de revolta, os compositores encaram o fato com ironia e já avisam como irão tirar proveito da situação. A Associação dos Compositores do Paraná, conhecida como Clube dos Compositores, vai organizar uma mostra para divulgar quem foram os desclassificados. ‘‘É um ótimo momento para mostrar o trabalho que fazemos’’, diz o músico Iso Fischer, um dos diretores do clube.
Começou como uma brincadeira, mas a idéia foi tomando corpo e já está praticamente consolidada. Músicos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul também serão convidados a participar da mostra, que acontecerá em Curitiba, provavelmente nos mesmos dias do festival do Rio de Janeiro.
Das 24 mil músicas inscritas no festival, 48 foram selecionadas. Segundo Fischer, 40% dos compositores são do Rio de Janeiro e 40% de São Paulo. A maioria dos 20% restante é de Brasília e Belo Horizonte. Dos mais de três mil paranaenses inscritos nenhum foi selecionado.
Na opinião de Fischer, os ouvidos do júri têm estética apurada para o padrão imposto pelo eixo Rio-São Paulo, o que comprovaria que a Rede Globo ‘‘faz o que quer’’. Ele afirma ainda que não acredita na ‘‘fórmula-comparação’’ dos festivais, em que um ganha e o resto fica com o estigma de que não presta. ‘‘Este modelo já está superado’’, diz.
O músico paranaense Glauco Solter, que concorreu com a composição ‘‘Nada Igual’’, comenta que a grande falha do festival foi ter aceito inscrições de músicos já consagrados. Como exemplo, ele citou o compositor Chico César, que foi um dos selecionados.
Solter disse achar muito estranho o fato de nenhum músico do Sul do Brasil ter sido aprovado pelo júri do festival. ‘‘Não tenho idéia de qual tenha sido o critério utilizado para a seleção’’, questiona. Sua maior curiosidade agora é conhecer as músicas que foram selecionadas, para poder avaliar a qualidade delas.
Em sua opinião, o mais frustrante é que o festival tenha deixado de lado a ‘‘musicalidade pitoresca e diferenciada’’ do Sul, o que faz parte da diversidade rítmica brasileira.
Para não parecer bairrista, o músico Zé Loureiro Neto, do Grupo Fato, cita o exemplo da música produzida no Rio Grande do Sul. ‘‘É um dos Estados mais produtivos do Brasil na área musical, seja na música regionalista ou na chamada MPB’’, diz. Ele lembra que nenhum músico gaúcho foi aprovado pelo júri do festival.
Loureiro pergunta ‘‘como pode ser criterioso um júri que seleciona, em menos de três meses, 48 músicas entre mais de 24 mil inscritas?’’ Glauco Solter diz que, embora não estivesse contando com a seleção da sua própria música, torcia por vários amigos. Segundo ele, foram muitos os artistas de grande talento que se inscreveram.
‘‘A qualidade dos músicos paranaenses não deve ser questionada, pois já foram dadas muitas provas disto. Vários músicos saíram daqui e estão tocando e fazendo sucesso pelo mundo’’, diz. O que deve ser questionado, na opinião de Solter, é o verdadeiro objetivo do festival, lançado com a promessa de revelar novos músicos. ‘‘Talvez haja muitos interesses comerciais, com gravadoras envolvidas nisso’’, comenta.
Informações sobre a Mostra dos Desclassificados podem ser obtidas com Ethel Frota, fone (041) 9995-7381 e Iso Fischer, fone (041) 233-8375, integrantes do Clube dos Compositores.

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