Paralamas, a maior banda nacional, faz show Acústico em SP
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quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 02 (AE) - O mundo do rock nacional nunca mais foi o mesmo depois que os pagodeiros e os "axezeiros" começaram a superar (com uma mão nas costas) a marca do milhão de discos. Acusam-se os roqueiros de, para fazer frente à concorrência brutal, "amaciar" o seu som e invadir programas de auditório com covers mal-ajambradas, parcerias duvidosas com breganejos, profusão de CDs ao vivo e outros artifícios. "Mas não tem nada que condenar essa ou aquela banda por isso", vaticina o baixista Bi Ribeiro, da banda Paralamas do Sucesso - a maior banda de rock do País na atualidade. "Nos anos 80, as pessoas viviam um outro momento e com o passar do tempo a vida vai mudando - ninguém pode passar a vida inteira fazendo as mesmas coisas", afirma.
Os Paralamas do Sucesso estão em temporada no Palace, apresentando o repertório do seu disco "Acústico" (EMI), que já vendeu 350 mil exemplares desde seu lançamento, há três meses. A longevidade do Paralamas é um dado a considerar no cenário do rock. É o único grupo dos anos 80 que não mudou a formação em 17 anos de existência.
Evitando polêmicas - Com seus músicos beirando os 40 anos, o grupo segue imperturbável sua trajetória, apadrinhando iniciantes (como os cariocas do Negril) e evitando os choques e as polêmicas. Tanto que não querem nem sequer tecer comentários sobre as acusações de plágio de que foram vítimas da parte do roqueiro Lobão, em debate recente na Fnac. Herbert Vianna diz que não sabe o que Lobão anda falando, não tem o que dizer disso. Diz que, basicamente, seu leitmotiv continua o mesmo de 17 anos atrás.
"A gente começou porque queria participar de uma coisa que estava acontecendo no Rio e chamava muito a atenção", conta Herbert Vianna, lembrando dos primórdios dos Paralamas - que vai comemorar 20 anos de existência em 2002. "Era um momento histórico, parecia uma espécie de libertação, em que todo mundo falava tudo", lembra, sobre a abertura política e o cenário efervescente dos anos de 1981 e 1982, quando tudo começou. "A gente era espectador, tocava Hendrix no quarto e queria participar daquilo, estávamos animados com aquele negócio, a influência da new wave, a coisa da simplicidade, o do it yourself."
Então, juntaram o que tinham e tentaram chegar ao Circo Voador e à Rádio Fluminense, passaportes para uma banda "decolar" no começo dos anos 80. Bi Ribeiro e João Barone eram desocupados. Herbert Vianna era despachante de cargas no Aeroporto do Galeão. "E a carga é a parte menos glamourosa da aviação: você despacha peças de máquina, cadáver, tudo o que tem de ser transportado por carga", recorda Vianna, que também era estudante de arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro. O pai era piloto da Aeronáutica.
"Minha família nunca teve dinheiro e meu pai ficava preocupado com aquela história da banda de rock", comenta o cantor. Ele diz que hoje consegue entender a preocupação do velho. "Naquela época, para um músico pop, não existia uma história, um caminho traçado - o único caso era a Rita Lee, que tinha atravessado duas décadas, mais um movimentinho nos anos 60
uns grupos progressivos nos anos 70", pondera.
Por conta desse "cenário nebuloso", Herbert Vianna tocava de noite e era estagiário de dia no Ministério da Aeronáutica. Só parou de trabalhar em 1983, após um show que marcou época no rock nacional. Eles tinham emplacado uma fita na Rádio Fluminense e lançaram o primeiro compacto com Vital e Sua Moto. Aí ocorreu um show no Barrashopping que se chamava Sexta Musical, na praça de alimentação. Foi um divisor de águas.
"Lobão, Cláudio Nucci, Nana Caymmi tocavam lá para 300, 400 pessoas", lembra. "Nós fomos lá tocar e, segundo a segurança do shopping, apareceram 5 mil moleques, que quebraram o shopping inteiro, fizeram guerra de pizzas, de sorvetes e acabou a Sexta Musical". Ele ganhou no show o que ganhava num mês inteiro de trabalho como estagiário. Não teve dúvidas: largou o trabalho.
"Eu me lembro com clareza de quando estava no quarto dos meus pais tocando os três acordes iniciais de Vital e Sua Moto", recorda. Até ali, a não ser umas coisas que fez no ginásio, Herbert nunca tinha escrito nada. Eles estavam atrás de uma tecladista (tinha de ser mulher) e de um cantor, que de preferência escrevesse letras. "A gente não achou nem uma coisa nem outra e eu eventualmente comecei a escrever", diz.
Peso e contundência - Cultor do português bem falado, bem escrito, ele descobriu que tinha certa facilidade para se expressar, para construir idéias. Então começou fazendo "qualé, seu guarda, que papo careta" e com o tempo foi amadurecendo seu trabalho.
"Embora a gente tenha sido reconhecido e consagrado como um grupo de pop alegrinho, acho que quando as pessoas vão ver a gente tocar procuram mais que isso, procuram também peso e contundência", pondera Herbert. "Principalmente pelo João (Barone, baterista), que é um fenômeno paranormal de musicalidade - talvez o único paralelo que encontre no Brasil seja o Igor Cavalera", considera.
Após a fase inicial, ele diz que houve um momento em que os Paralamas acharam que estavam falando de coisas que eram "emocionalmente violentas". Mas a única pessoa que falou claramente sobre isso foi o Cazuza, diz o músico, quando eles lançaram "Bora Bora". Com a entrada dos sopros e dos metais, Cazuza considerou que, naquele ponto, seu som não era mais só aquele estilo de "vamos sair por aí". "Mas a gente vai levar até o fim esse carimbo de alegrinho", afirma.
Herbert refuta energicamente a idéia de que tenham, em algum momento, passado a trilhar um caminho mais comercial em sua carreira. "A gente nunca fez nada que fosse orientado pela perspectiva de tocar mais no rádio ou de vender mais discos", garante. Ele diz até que quando a banda gravou "Severino" cometeu uma espécie de "suicídio" artístico. "A gente gastou a maior grana num disco que não tinha nada de possibilidade comercial e todo mundo achou péssimo e depois virou cult", diz. "Hoje em dia, tudo o que a gente faz vem alguém e diz: ah, é bom, mas cadê aquele pioneirismo desbravador do Severino?", desabafa.
O show "Acústico, que apresentam no Palace, certamente não é um capítulo da inovação que trouxeram com "Selvagem?" e "Severino, mas também não afasta os Paralamas de sua caminhada imperturbável para o olimpo do rock nacional. Com um tecladista, mais sax, trombone e trompete, os três repassam uma trajetória de 17 anos - hoje sintomaticamente embalada pela cover de "Que País É Esse?", música de Renato Russo dos tempos em que não era nem do Legião Urbana, mas de uma obscura banda de Brasília chamada Aborto Elétrico. Serviço - Paralamas do Sucesso. Duração: 1h30. Sexta e sábado, às 22 horas - de R$ 30,00 a R$ 60,00; domingo, às 20 horas - de R$ 25,00 a R$ 55,00. Palace. Alameda dos Jamaris, 213, tel. 5051-4900


