Fábio Dobbs
TV Press
Matheus Nachtergaele é o tipo de ator capaz de se entregar a um papel a ponto de esquecer de comer. ‘‘Quando fiz o Cintura Fina na minissérie ‘Hilda Furacão’, emagreci oito quilos’’, calcula Matheus. Como já é franzino - 1,66 m de altura e 60 kg -, o ator confessa que ficou ‘‘parecendo um passarinho’’. Para fazer o novo personagem, o Padre Miguel da macrossérie ‘‘A Muralha’’, no entanto, Matheus teve de se policiar para não perder peso. ‘‘Estou até um pouco gordinho’’, gaba-se. Nos 49 capítulos Matheus vai ter de lidar com o singelo jesuíta. ‘‘O personagem é sempre um fardo que se carrega. Por mais que termine e o ator se desligue no fim das gravações, ele está sempre presente’’, acredita.
Algumas características, porém, ficam para sempre. Matheus não nega que papéis como o Cintura Fina, de ‘‘Hilda Furacão’’, e João Grilo, da microssérie ‘‘O Auto da Compadecida’’, deixaram marcas indeléveis em sua personalidade. O michê Cintura Fina deixou em Matheus a certeza de que todas as pessoas têm o direito de ser o que quiserem. Já o golpista João Grilo explicitou o lado bufão, brincalhão e mentiroso do ator. ‘‘Sou um ator. Minha profissão é fingir, mas cada personagem leva um pouco de mim’’, avalia.
Para interpretar o Padre Miguel, Matheus teve que aprender a se conter. Cortou os cabelos de forma arredondada para dar um ar mais juvenil e deixou de lado o estilo caricato dos personagens anteriores para uma interpretação mais psicológica, estudada em cada momento de contrição do Padre Miguel, que chega ao Brasil para catequizar os índios e acaba vendo que o paraíso não é bem como pintaram para ele. ‘‘Ele é um aprendiz ingênuo, um homem que está crescendo e descobrindo a realidade’’, define. A pureza é tanta que Matheus está até mesmo deixando de mentir. ‘‘Nunca menti muito, mas confesso que esse personagem está me deixando mais ético’’, admite.
Leia, a seguir, a entrevista com Matheus Nachtergaele.
Como você compara o Padre Miguel com os outros personagens que já fez?
Ele nunca mente e estou gostando disso. Mentir é um problema verdadeiro para ele, ao contrário do João Grilo, que vivia mentindo. Trabalhar diversos personagens é bom. Primeiro porque vai-se ficando mais elástico quanto à moralidade e ao julgamento. Cada personagem que passa, tira alguns preconceitos e deixa o ator mais generoso. O Cintura me deixou uma certeza de que todos têm o direito de ser o que quiserem, não importa o que sejam. É o tipo do personagem que causa atitudes como ‘‘se você não me aceita me mata’’, porque o fato de não me aceitar já está me matando. O Grilo já era um arquétipo, especialmente brasileiro, mas capturado do arlequim medieval. É a moralidade relacionada à fome. Tudo o que ele faz é absolvido pela necessidade causada pela fome.
É mais difícil fazer um personagem contido?
Por um lado, é mais simples porque me afasto pouco de mim. Além disso, lido com seus sentimentos de uma maneira muito íntima. Por outro lado, muitas coisas que exporto para um personagem pode me proteger muito, se o traço dele for forte. Acho que um personagem como Miguel me expõe muito.
Isso quer dizer que ele expõe muito sua personalidade?
É. Em vários momentos me sinto muito parecido com ele.
Em que momentos, por exemplo?
Na maneira de falar. Uma certa tranquilidade ao tentar falar com as pessoas. Acho que isso é uma coisa minha que trago para o personagem. Agora, é claro, ele difere de mim no sentido que é puro e um honesto.
Você não encontra essa característica em você?
Não. Já sou um sujeito mais sambado. O Miguel chega do Reino completamente convencido das idéias catequéticas dos jesuítas e completamente bombardeado por dogmas. Ele foi criado sob uma rigidez terrível. Está disposto a se santificar e a oferecer sua vida a Cristo, apresentar Deus aos índios e salvar as almas das pessoas. Isso é ingênuo, né? Ele vai percebendo que existem coisas mais importantes do que isso e que talvez a missão dele na Terra seja outra.
Você fez algum tipo de pesquisa religiosa para compor o Padre Miguel?
Eu li muito. Para poucos personagens li tanto quanto para esse. Comecei a ler alguns autores interessantíssimos, como os teólogos Ignácio de Loyola e José de Anchieta. Li outros livros mais específicos de historiadores que narram a trajetória dos jesuítas no mundo. Há uma literatura muito vasta a respeito. Não sabia disso. Pensei que ia ter dificuldade de encontrar publicações. Pelo contrário. Encontrei bastante livros. Então, é isso: esses livros estão ali na cabeceira para qualquer eventualidade.
Você se tornou uma pessoa religiosa depois deste trabalho?
Não sou religioso. O personagem é extremamente religioso. Ele tem bastante fé. Essa é uma coisa que desconheço. Não tenho. Trabalhei muito isso na época da peça ‘‘O Livro de Jó’’. Era um personagem que tinha uma fé gigantesca. Acho que ele acabou vazando um pouco para o Miguel. Só que Miguel não é tão heróico quanto o Jó. Ele é humano. Já o Jó é sobre-humano. Eu não tenho uma religiosidade específica. Não participo de nenhum culto, nem acredito num Deus específico. Qualquer religiosidade está longe de tocar meu coração como acontece com o Miguel.
Em que você acredita?
Não acredito em Deus, mas costumo agradecer a vida que tenho. Mas não agradeço a ninguém específico. Acho um milagre a vida. Mas isso é muito mais uma sensação religiosa do que necessariamente uma religiosidade específica. A vida é algo milagroso. Acho um milagre a vida existir quando tudo concorre contra ela. O meu sentimento religioso está muito ligado a uma sensação que tenho de que a Terra faz pressão contra a vida. Por isso mesmo, a vida é tão rica e se utiliza de tantas e infinitas formas para sobreviver, porque a vida tem de lutar para sobreviver. Vivemos numa corrida para melhorar a vida em geral e isso diz respeito a todos os seres. Mas isso não é Deus. A vida é que precisa ser melhorada. E sou um ser que faço parte deste processo de elaboração. Se você é bom, melhora a vida. E qualquer pardal sabe do que estou falando.
Você se inspirou na figura de algum padre em específico?
O meu padre não está plugado na figura de nenhum padre. Está muito mais ligado a um sentimento de contrição, de missão. Esse personagem é típico de um procedimento mais interiorizado.
É uma concepção mais psicológica que corporal?
Ele é um dos personagens mais contidos que já interpretei. Toda a peripécia se passa no interior dele. O que me parece interessante neste momento é que estou vindo de trabalhos de composição muito marcados. Tanto o Cintura Fina quanto o João Grilo. Isso sem falar nos outros personagens de cinema que têm um traço muito forte. Já esse personagem se utiliza mais da voz, do olhar, do meu corpo, sem maiores transformações. Primeiro porque esse é o tom da minissérie. E segundo porque, enfim, é quase um folhetim, uma obra muito longa, com 49 capítulos. Não dá para forçar muito o traço. Principalmente, no começo. Isso pode colocar o ator numa situação de perigo depois.
Seria um personagem mais naturalista?
É. Acho que esse personagem é naturalista. Não gosto muito dessa palavra. Ele é um personagem natural da época. É realista. Ele é uma pessoa muito provável de ter existido.
Mas o Cintura e o Grilo não eram realistas?
No caso do Cintura, sim. Apesar do traço ser forte na composição, ele era um personagem realista. A minissérie toda era realista. Já o Grilo, não. Esse era um típico personagem de comédia bufa. Apesar de - e claro - existir na realidade, mas existe também um forte traço teatral.
Você sempre se dedicou a minisséries. Isso significa uma certa aversão a novelas e a papéis mais comuns?
Já houve convites para novela, mas sempre que aconteceu estava envolvido em outros projetos. Confesso que gosto dos trabalhos mais curtos, porque se entende melhor o personagem. O começo do personagem está muito relacionado ao fim dele, ao ponto em que se vai chegar. E isso só se tem numa obra fechada. Não sei se tenho vontade de fazer novelas. Fico curioso, mas trabalhos menores combinam mais com minha índole.
Como é a reação do público na rua em vista dos personagens feitos por você?
Em geral, é muito carinhosa. Mas devo confessar que tive medo quando fiz o Cintura Fina. Primeiro porque achava que o personagem tinha de ter carisma e não queria contribuir com mais preconceito. E segundo porque tinha medo que as pessoas me confundissem com o personagem, porque não há dúvida de que o ator sempre é um pouco o personagem. Mas, aconteceu o contrário. O Cintura Fina teve uma aceitação violenta na faixa etária de 17 anos, justamente os jovens que achei que fossem se incomodar mais. O lado contestador que luta para ser o que é acabou criando uma identificação com o adolescente. Agora estou torcendo para o Padre Miguel ter a mesma aceitação.Para fazer o Padre Miguel, na macrossérie ‘‘A Muralha’’, o ator Matheus Nachtergaele convive com tribos indígenas e aprende a falar o tupi-guarani
Luiza Dantas/Carta Z NotíciasMatheus Nachtergaele:‘‘O Padre Miguel é um ingênuo, um personagem que está me deixando mais ético’’