Paradoxo da solidão
Paradoxo da solidão
Heloisa Seixas fala sobre Diário de Perséfone, livro que acaba de lançar pela Editora Record
Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasHeloisa Seixas: Eu particularmente não sou sozinha. Mas existe um tipo de solidão que faz com que as pessoas tenham uma visão detalhista da vida
Fernando Miragaya
Cult Press
Heloisa Seixas desenvolve uma relação curiosa com a solidão. Em seu mais novo livro, Diário de Perséfone (320 páginas/R$ 25), lançado pela Record, a escritora e jornalista de 45 anos fala da solidão como um paradoxo da natureza humana. A solidão é inquietante e fascinante ao mesmo tempo, define.
Em Diário de Perséfone, este paradoxo é o elo entre três personagens que não se conhecem. Cléo, Aaron e Dana são três brasileiros vivendo em Nova York e que cruzam o caminho uma das outras. Cada história é conduzida pelo relato de Perséfone - personagem da mitologia grega que foi arrastada para o Inferno e que, depois de muito resistir, sucumbiu à fome e acabou condenada ao comer uma romã. O momento no qual ela está sozinha sem comer nem beber é a imagem da solidão absoluta, acredita.
Essa mesma solidão é utilizada por Heloisa ao escrever. Mesmo ressaltando que não é uma pessoa sozinha, a autora acredita que o isolamento é necessário na hora de criar. As idéias fluem com maior facilidade, avalia.
Este é o primeiro livro de Heloisa que não segue a linha do terror - ela escreveu O Pente de Vênus, e organizou a coletânea Depois - Sete Histórias de Horror e Terror. Mesmo assim, a escritora acredita que sempre vai utilizar o terror de uma forma sutil. Gosto de falar de terrores abstratos, que existem dentro das pessoas, atesta.
Seu novo livro fala de solidão e você costuma dizer que o escritor passa para suas obras coisas que vivencia. Seria o caso de Diário de Perséfone?
Heloisa Seixas - A gente sempre está colocando pedaços de nossa vida no que escreve. Eu particularmente não sou sozinha. Mas existe um tipo de solidão que faz com que as pessoas tenham uma visão detalhista da vida. Posso dizer que tenho um fascínio pela solidão como um paradoxo. Gosto de escrever sobre essas coisas paradoxais. Em A Porta falei muito sobre paixão, que é uma coisa fascinante e inquietante ao mesmo tempo, assim como a solidão.
Mas você diz que precisa estar sozinha para escrever...
Heloisa Seixas - O ideal é estar isolada. Escrever é um ato solitário. Você tem mais oportunidades de deixar fluir as idéias que vêm da zona misteriosa de sua cabeça. É claro que nem sempre isso é possível. Às vezes é até interessante escrever no meio de muita gente, com barulho. Já tomei anotações em salas de espera de médico, ando com gravador no carro e gravo idéias que me vêm à cabeça no meio do trânsito, e já até parei de trabalhar para escrever alguma coisa. Ultimamente, como passei a trabalhar por conta própria, fico sozinha em um escritório, o que me ajudou bastante para escrever um livro sobre solidão.
Foi assim que surgiu a idéia de escrever Diário de Perséfone?
Heloisa Seixas - Sempre tive vontade de escrever sobre solidão e a história de Perséfone sempre me impressionou. Sempre quis mexer com essa lenda, pois ela me marcou muito na infância. O momento que Perséfone está sozinha sem comer nem beber é a imagem da solidão absoluta. Então, peguei histórias de pessoas solitárias vivendo momentos-limite, que se esbarram, mas que não se encontram. É uma espécie de metáfora da solidão.
Seus livros anteriores tratavam de aspectos sobrenaturais, ao contrário de Diário de Perséfone. Você ficou com medo de ficar rotulada como uma escritora de terror?
Heloisa Seixas - Acho que sempre utilizei o terror de uma maneira sutil. Neste meu livro atual, há uma espécie de terror abstrato, que existe dentro das pessoas. E isso eu vou abordar sempre. Por isso não tenho receio em ficar rotulada, pois falo de terrores diferentes. Escrevo muito sobre os fantasmas que me assombram e que assombram as pessoas. Gosto muito deste estilo.
Nos seus projetos há algum novo livro de terror?
Heloisa Seixas - Estou preparando uma coletânea de contos de terror que pretendo lançar no ano que vem. As obras são do escritor americano Ambroise Bierce, que morreu no início deste século. Pretendo lançar um livro de contos próprios que seguem uma linha que não definiria como de terror. Neles, mexo com aspectos misteriosos e paradoxais da alma humana.





