É quase inevitável não se render ao charme sedutor de Vinicius de Moraes, que desde novembro está reencantando o público que confere o documentário ''Vinicius de Moraes'', de Miguel Faria Jr., que estréia hoje, em Londrina, no Cine Com-Tour (veja programação na página 2). Entrecortado por depoimentos de amigos do ''poetinha'' denominação que passa longe da grandeza criativa de Vinicius , o filme é uma rara oportunidade de conhecer mais sobre a vida de Vinicius através de falas emocionadas e originais de quem realmente conviveu de perto com ele. Os atores Camila Morgado e Ricardo Blat também fazem uma leitura dramática de alguns poemas de Vinicius. E, como espectadores, somos transportados a um palco onde músicos de estilos variados da novata Mart'nália até artistas consagradas como Adriana Calcanhoto e Mônica Salmaso interpretam algumas das belas canções compostas por Vinicius. ''Ele, além de dominar a poesia escrita, ainda tinha o dom da música'', ressalta o seu amigo Toquinho, que junto com a última esposa do poeta, acompanhou o final da sua vida, no dia 9 de julho de 1980, após sofrer um edema pulmonar.
Foram 66 anos de vida intensa (ele faria 67 anos no dia 19 de outubro), de quem sempre foi movido pela paixão, sua musa inspiradora para uma existência tão frenética. Casou-se nove vezes e não tinha pudor em explicar o fim dos relacionamentos: ''deixei de gostar e, para mim, mulher não é apenas um objeto sexual'', aparece Vinicius dizendo a amigos em um bate-papo informal na sua casa.
Sua casa, aliás, inaugurou o conceito de ''portas abertas'', como relembra Edu Lobo, também parceiro de composições. Vinicius cultuava a amizade e para ele reunir os amigos para compor acompanhado de boas doses de whisky (que ele chamava de ''cachorro engarrafado'', referindo-se à bebida como o melhor amigo do homem) era uma simples e cotidiana forma de celebrar a vida. Essa idéia fica bastante marcante no depoimento do poeta Ferreira Gullar que destaca que Vinicius ''vivia pela borda'' o 'copo' estava sempre cheio, prestes a derramar um rio de emoção pela vida afora.
Abnegado para questões materiais, gostava de esbanjar dinheiro, que nunca foi sua prioridade. Durante sua carreira diplomática, ganhava bem, mas sempre estava em situação financeira desconfortável, como relata sua primeira filha, Susana Moraes. Ela, aliás, em nenhum momento se refere a ele como ''pai''. Outras duas filhas também ressaltam que, no âmbito familiar, não era fácil conviver com tamanha efervescência de personalidade.
É emocionante ouvir Edu Lobo falando dos últimos anos do amigo poeta, assim como a sua interpretação de ''Berimbau''. Carlos Lyra, Maria Bethânia, Tonia Carrero, Caetano Veloso e Chico Buarque que surpreende na desenvoltura ao contar diversas histórias do amigo Vinicius são alguns dos nomes de peso que dão um toque especial ao documentário.
A edição do filme poderia ter sido mais sucinta, pois são duas horas de proheção, e faz falta ouvir Bethânia cantando Vinicius, ainda mais por ter lançado recentemente um disco apenas com canções do poeta.
Mas vale a pena, e muito, mergulhar no universo do poeta que ensinou o brasileiro a viver melhor, como afirma Ferreira Gullar. De fato, era grande o poeta que traduzia com maestria o cotidiano em poesia e deixou marcado no senso comum o sentido da fugacidade da vida e do amor. ''Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure'' (trecho de Soneto da Fidelidade). Que bom que ele tem durado.

mockup