Para ver e guardar
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de julho de 1998
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Atenção, videomaníacos: estão saindo mais dois filmes em sell thru, venda direta ao consumidor. Os dois títulos enriquecem qualquer coleção que se preze, ambos da CIC Vídeo. Ladrão de Casaca é o 12º filme da Alfred Hitchcock Collection da distribuidora, reunindo os títulos da grande fase americana do mestre do suspense. Agora, só falta sair Marnie, as Confissões de uma Ladra. Os demais títulos estão quase todos presentes. São os filmes produzidos na Paramount e na Universal. Só não adianta procurar Janela Indiscreta, já que a empresa reservou os direitos para o relançamento mundial do filme nos cinemas em 2005. Quem viver verá. O outro lançamento em sell thru da CIC é A Lista de Schindler, o mais prestigiado dos filmes sérios de Steven Spielberg.
Não apenas o mais prestigiado, mas também o melhor, pelo menos até que chegue O Resgate do Soldado Ryan, com Tom Hanks, que entrou em cartaz na sexta-feira nos EUA e tem previsão de estréia no Brasil em 11 de setembro. O filme assinala o retorno de Spielberg à 2ª Guerra, que também fornece o cenário de Schindler. Outro filme sério do diretor, Amistad, sobre um levante de escravos norte-americanos, foi recebido com reservas pelos críticos e também não faturou o esperado de público. Schindler, sim, fez bonito ao emplacar os Oscars de melhor filme e direção e ao juntar ao prestígio o sucesso de bilheteria.
Spielberg reuniu um elenco de milhares de extras para reconstituir o campo de concentração de Plazlow. Não foi tão ativo e sinistro quanto o de Auschwitz-Birkenau, mas passa para o espectador o horror que foi o holocausto. Seria interessante cotejar o filme de Spielberg com o de Francesco Rosi, A Trégua. O segundo começa onde Schindler termina. Schindler, o personagem interpretado por Liam Neeson, é um personagem real. Ninguém sabe direito por que resolveu salvar judeus que trabalhavam para ele. Schindler torna-se íntimo do oficial nazista Amon Goeth (Ralph Fiennes, na melhor interpretação do filme).
Goeth é insano. Vai para a varanda e, com um rifle de alta potência, faz tiro ao alvo nos judeus. Goeth apaixona-se por uma judia. Não a estrupa, mas não consegue admitir o sentimento nem a si próprio. Chama-a de prostituta, surra-a brutalmente. As cenas são fortíssimas, mas um diretor mais adulto exploraria mais a psicologia complexa de Goeth.
Na cena mais apavorante, mulheres são enviadas a Birkenau. Cortam-lhes os cabelos, elas ficam nuas e são forçadas a entrar na câmara de gás. O cinema nunca havia ido tão longe antes. É um mérito de Spielberg, mas, com todas as qualidades do diretor, o filme exibe também suas facilidades melodramáticas. Há excesso de música (de John Williams) derramando-se sobre cenas que exigiriam o silêncio. Mas é o tipo do filme que vale ter em casa. Hannah Arendt dizia que só o mal é banal. Schindler fazia o bem. Só o bem é intrinsecamente radical uma lição que Spielberg entendeu.
Ladrão de Casaca é outra coisa. Um divertimento perfeito em sua mistura de suspense, romance e humor. Cary Grant faz o ex-ladrão forçado a voltar à ativa quando alguém começa a usar seus antigos métodos para roubar jóias na Riviera Francesa. Grace Kelly é a mulher por quem ele se apaixona (e o ajuda a provar sua inocência). O falso culpado sempre foi um tema hitchcockiano clássico. O mestre o retoma em Ladrão de Casaca.
Para quem acha que Hitchcock e Freud nasceram um para o outro (quem não?), é um prato cheio. Fogos de artifício representam o gozo sexual na cena do beijo entre Grant e Grace (que, durante a filmagem, conheceu o príncipe Rainier e se tornou princesa). O sexo também é sugerido quando Jessie Royce-Landis, como a mãe da heroína, apaga um cigarro numa gema de ovo. Toques assim contribuem para enriquecer o filme.


