Para trazer bons ventos
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de agosto de 1998
Celina Alonso Az 
Marcos NegriniO leque - um adereço que já foi peça integrante do visual feminino nas cortes européias - é muito pouco usado no Brasil. No Japão, um país considerado frio, no verão a temperatura chega a 40 graus e mesmo onde o ar condicionado chega, leques e abanadores são indispensáveis.
Em Maringá, o comerciante aposentado Akio Kuwabara, 70 anos, é hoje um dos últimos remanescentes fabricantes de leques japoneses. Além da função de espantar o calor, no Japão o leque aparece em outras ocasiões. Em quase todas as danças típicas ele faz parte da coreografia.
Marcos NegriniAlgumas das obras confeccionadas por Kuwabara: Acho que vou morrer fazendo lequesComo no Bon Odori, um culto aos antepassados em que os dançarinos colocam um leque na cintura preso ao quimono. Alguns dizem que é para levar bons ventos aos mortos. Outros dizem que é simplesmente para que nos intervalos da dança o calor do dançarino possa ser amenizado .
Desde a entrada dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, há 90 anos, que o leque típico, feito em bambu aparece espantando o calor do ocidente. Entre os japoneses supersticiosos costuma-se dizer que o leque traz bons presságios. Dizem que é por esta razão que muitos enfeites no Japão têm o formato de leque. Eles contam que o movimento de expansão do leque é passado para os empreendimentos. Abrem-se os horizontes, trazendo bons ventos, diz o artesão Akio Kuwabara.
Ele começou a confeccionar leques em bambu há 15 anos. Hoje é um dos últimos no Brasil. Em São Paulo tinha um homem que fazia, em Mogi das Cruzes, mas morreu. Por isso eu quero que os interessados me procurem logo porque eu quero passar a técnica. Eu já estou quase no fim da picada e quero passar esse conhecimento para a frente, diz o artesão.
Kuwabara faz os leques com pedaços de bambu verde e papel com gravuras que o freguês desejar. Ele costuma pegar fotos de folhinhas com motivos japoneses, e outras gravuras coloridas, confeccionando cerca de 20 leques por dia. A técnica ele conta como adquiriu: Aprendi de curioso. Ficava olhando diariamente para um leque antigo. Aí desmanchei e construí de novo. Existe um pensamento em japonês que diz que a gente pode ouvir uma coisa cem vezes, mas que só aprende quando vê.
Akio Kuwabara passou a sobreviver com a fabricação de Utiwa (leque em japonês) porque não queria mais continuar trabalhando como empregado no comércio de cereais. Ele acha que foi uma feliz descoberta. A idéia nasceu sem eu pensar nela. Quando vi já estava fazendo e gostando de trabalhar com isso. É como um pintor que fica muito satisfeito quando olha para seu quadro.
Os leques que mais gosta de fazer são os com as gravuras da pomba da paz, os com a Catedral de Maringá e com mensagens de alegria e de otimismo escritas em japonês. Além de sobrevivência, fazer leques para Kuwabara é uma filosofia de vida. Quando a gente trabalha com as mãos é mais difícil ficar caduco. E fico tão satisfeito vendo o trabalho pronto como qualquer profissional quando constrói algo perfeito. Acho que vou morrer fazendo leques - diz ele.


