Vale, na escolha do disco que você vai dar de presente, aquela opção por alguma coisa menos comum - não há nada pior, para quem presenteia e para quem é presenteado, do que aquela expressão de ‘‘este eu já ganhei’’. Claro, é sempre um prazer dar ou receber ‘‘As Cidades’’, do Chico Buarque, ou ‘‘Reposta ao Tempo’’, da Nana Caymmi. Mas há outros títulos na praça. Às vezes, um pouco mais difíceis de encontrar - não estão nas prateleiras das lojas de magazine ou dos supermercados. Mas ainda temos um tempinho, vamos lá.
O violeiro e cantador Dércio Marques acaba de lançar duas novas obras rigorosamente admiráveis, o CD simples ‘‘Espelho d’Água - Sons e Sentimentos da Natureza’’ e o duplo ‘‘Cantigas de Abraçar - Almanaque Musical’’. O primeiro é uma coleção de 15 canções que têm a água como tema, algumas escritas para o disco (por gente como Xangai, Nonato Luiz, Luli e Lucina), outras recolhidas das tradições populares e folclóricas Marlui Miranda traduziu e adaptou Ju Paraná, dos Jurunas de Mato Grosso e há outras adaptações do gênero.
Mas não pensem, pelo citado, que se trata de um disco ‘‘folclórico’’ - é, de fato, uma coleção de lindas, melodiosas canções que você ouvirá nas vozes combinadas de Xangai, Vitorino, João Bá, Kátia Teixeira, Ney Couteiro, Dércio e Doroty Marques, Fernando Guimarães, Juliana Caymmi - a fina flor dos armorialistas à moda do interior de São Paulo.
Arquivo FolhaO violonista Turíbio Santos e duas preciosidades musicais: ‘‘Turíbio Santos & A Orquestra de Violões’’ e ‘‘Latinidad’’O álbum duplo ‘‘Cantigas de Abraçar’’ é de ganhar prêmios, um dos discos mais bonitos dos últimos tempos, com canções de Renato Teixeira, outro agregado da turma de Dércio, Carlos Pita, Maciel Melo, Chico Maranhão, Elomar (que oferece a maravilhosa Cantada e mais um número) e outros mestres dessa grande sonoridade brasileira do interior que se mantém viva por força desses guerrilheiros - urdidores de nossa possível música clássica, nos cânones propostos por Ariano Suassuna: usa-se os elementos do canto do quarto poder, como ele diz, para dela construir nossa linguagem erudita, em qualquer área da manifestação artística. É o que de mais sofisticado você poderá dar de presente. Não encontrando nas lojas (são gravações independentes), peça diretamente ao autor, pelo telefone-fax (011) 485-1519.
O violonista Turíbio Santos também lança dois discos: ‘‘Turíbio Santos & A Orquestra de Violões’’ (Visom) e ‘‘Latinidad’’ (WEA). Chiquinha Gonzaga formou a primeira orquestra de violões de que se tem notícia e, seguindo seu exemplo, com variações na composição dos grupos, outras orquestras se formaram, infelizmente de breves vidas. Esta aqui tem 21 integrantes, sob a liderança de Turíbio, dedicados a um repertório que vai de Radamés Gnattali (Samba-Canção e Baião) a Francisco Mignone (Maracatu do Chico Rei), Edino Krieger (Ronda Breve, Marcha-Rancho) e, naturalmente, Villa-Lobos, da fase ultranacionalista (Canto do Pajé, Desfile aos Heróis do Brasil, Lenda do Caboclo), eventualmente com arranjos originais ou reduções sugeridas pelos autores.
‘‘Latinidad’’ é uma compilação de faixas gravadas entre 1973 e 1985, nunca antes reunidas (nem lançadas em CD). ‘‘O violão é o precursor do Mercosul’’, diz o violonista. O disco reúne de Gonzaga (‘‘Asa Branca’’, ‘‘Juazeiro’’, ‘‘Assum Preto’’) a Alfonso Borcqua (‘‘Ecos del Paisaje’’), Nazaré (‘‘Escovado’’, ‘‘Tenebroso’’) até ‘‘Valsa Venezuelana’’ de Villa-Lobos, em leitura tão delicada quanto virtuosística.
‘‘História Antiga’’ (gravadora Atração) é o segundo disco do cantor Renato Braz, que se soma ao pequeno time de intérpretes brasileiros (nossos cantores são quase todos compositores; ele só canta). Se for necessária uma comparação, vale lembrar de Zé Renato, tanto pelo cuidado na seleção do repetório quanto pela qualidade da voz límpida de tenor e no capricho da produção. No novo trabalho, sempre com especial atração pelas toadas e canções, Renato revisita Jararaca (‘‘Do Pilᒒ), Edu Lobo e Chico Buarque (‘‘Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa’’), Jobim e Vinícius (‘‘Chora Coração’’, ‘‘Eu não Existo sem Voc꒒), Zé Dantas (‘‘Acau㒒), Chico Buarque (só a pouco conhecida ‘‘Sentimental’’). A maior parte dos arranjos é assinada por Dori Caymmi e melhor aval do que esse não existirá.
Agora, digamos que você opte por clássicos da música brasileira - há ótimos relançamentos da bossa nova nos catálogos da PolyGram e do Musiclub e a Readers Digest Musica produziu, com cuidados de Roberto Menescal, um dos artífices do movimento, uma antologia em quatro CDs que traz o fundamental da fase áurea da bossa. É só ouvir.Arquivo FolhaChico Buarque: depois de cinco anos sem gravar um disco inédito, o grande poeta surge com ‘‘As Cidades’’Arquivo FolhaNana Caymmi e o seu ‘‘Resposta ao Tempo’’: trabalho delicado e prazeroso de uma divaMauro Dias
Agência Estado

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