Para todos os gostos
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2012
Márcio Maio <br> TV Press 
Muitos autores defendem que as telenovelas sempre foram feitas para um público amplo, levando-se em consideração todas as camadas sociais. Mas é nítido que há histórias que carregam tintas mais fortes em determinados aspectos populares. Seja na aposta em um personagem principal que crie uma identificação maior com classes mais baixas ou em uma linguagem que seja facilmente compreendida por pessoas que não saibam sequer ler.
Mas também defendem que isso não significa necessariamente uma queda na qualidade ou que desagrade classes mais cultas e sofisticadas. ''Apesar das dificuldades, o brasileiro, de modo geral, é esperto, articulado, conectado e informado. Popularidade e sofisticação não são virtudes autoexcludentes'', defende Filipe Miguez, que ao lado da colega Izabel de Oliveira vem mantendo índices de audiência sempre acima dos 30 pontos com ''Cheias de Charme'', às 19 horas, na Globo.
A ideia de conquistar classes mais populares não surgiu com a ascensão da classe C, garante Ricardo Linhares. Parceiro de Gilberto Braga em trabalhos como ''Celebridade'', ''Paraíso Tropical'' e ''Insensato Coração'', ele acredita que, há alguns anos, o número de analfabetos deveria ser ainda maior. ''A tevê sempre tentou falar com todos os públicos. Hoje, a situação é muito melhor'', defende.
Marcílio Moraes, da Record, concorda. E vai além, lembrando que, há algumas décadas, intelectuais costumavam fingir que não assistiam às telenovelas por puro preconceito. Algo que até hoje, na sua opinião, ainda pode ser notado. ''Todo mundo vê novela, mas uma parte finge que não vê'', atesta Marcílio, que prefere escrever seus textos em várias camadas de compreensão. ''Certos diálogos, por exemplo, serão entendidos apenas enquanto levam a história para frente por alguns. Já outros vão perceber as ironias, insinuações e citações literárias'', explica.
É quase uma unanimidade a ideia de que trabalhar a emoção no texto e nas cenas é o melhor caminho para buscar o sucesso de público. ''Alguém da classe A não é necessariamente mais atento e sensível que os telespectadores de classes baixas. Se a gente escreve com emoção, ação, humor e, principalmente, verdade, a novela desperta o interesse'', defende Alcides Nogueira, que adaptou com Geraldo Carneiro o remake de ''O Astro''.
E, normalmente, as impressões pessoais são os maiores termômetros para definir o potencial que cada obra tem de emplacar ou não no ar. ''Escrevo pensando em mim. Espero que, se agrada a mim e eu entendo, vai agradar aos outros. E tem dado certo'', garante Gilberto Braga.
Ex-colaboradora de Gilberto, Izabel de Oliveira segue um discurso semelhante. ''Novela tem de falar de relações humanas. Assim, o público se identifica'', diz. Mas há quem simplesmente não tente diferenciar o público a partir de padrões sociais ou culturais. ''Sou de família simples e convivi com pessoas de pouco estudo. Já conheci gente com alto grau de instrução, mas superficial. E outros aparentemente simples com grande sabedoria'', filosofa Walcyr Carrasco, que estreia no próximo dia 19 o remake de ''Gabriela'', às 23 horas, na Globo.
Mesmo em graus mais baixos de instrução, o público é capaz de reconhecer ou não a qualidade de um produto televisivo. Pelo menos essa é a linha de raciocínio seguida pela dupla Thelma Guedes e Duca Rachid. As duas já emplacaram três novelas de sucesso no horário das 18 horas. Sendo a última delas, ''Cordel Encantado'', um dos maiores sucessos de crítica e público do horário dos últimos anos. ''Sempre usei minhas referências de literatura clássica e popular na escrita, sem economizar e nem precisar banalizar o texto'', garante Thelma, que é defendida pela colega Duca. ''Dá perfeitamente para ser popular sem ser popularesco. E 'Cordel' é uma prova disso. Foi uma produção sofisticada, que a gente só via em séries exibidas em horários mais tarde, supostamente para um público mais 'esclarecido''', valoriza.


