Para todos e para ninguém
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terça-feira, 16 de outubro de 2001
Rubens Pileggi Sá<br> De Londrina 
Acusado pelos bolcheviques de fazer uma poesia de vanguarda que não era acessível à sensibilidade do operariado russo, Wladimir Maiakóvski escreveu seu famoso poema intitulado ''Incompreensível para as massas'', defendendo uma postura de transformação da linguagem para um novo tempo que deveria se iniciar com a revolução socialista. Mais, tal poema era um dos mais apreciados pelos operários quando lido nas fábricas.
''Não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária'', pregava a vanguarda concretista desde os anos 50, no rastro do futurismo russo. Foi graças à essa visão de arte, aliás, que artistas como Oswald de Andrade - o pai da poesia Pau-brasil e do Manifesto Antropofágico - puderam ser resgatados. Não foi assim com a física quântica? ''É preciso criar novas linguagens, para pensar um novo conceito de universo'', pregava Werner Heinserberg, um dos criadores da teoria do acaso e da imprecisão na ciência.
Diferente da arte moderna que prega a coerência interna entre os signos que a compõem, fechando o circuito de entendimento de seus postulados nela mesma, a arte contemporânea não se identifica com nenhum princípio purista para a sua compreensão, possuindo tal abertura para interpretações e sentido que torna impossível compartimentalizá-la em qualquer campo específico e especializado de conhecimento. É esta a sua maior vantagem e sua maior vulnerabilidade diante da arte moderna - sua precedente -, uma vez que a marca que a identifica como obra ou não, está sempre no limite tênue que divide a arte da vida, em um território não específico do saber sensível.
Contra a política discursiva da verborragia vazia, o que conta para o movimento contemporâneo são as práticas de contaminação de áreas diversas, permitindo correspondências que tornam possíveis a troca de informações dentro de circuitos globais. Em outras palavras, não se pode tornar nada contemporâneo se a base do entendimento de onde as coisas se dão continuam deterministas, newtonianas. É preciso e possível pensar aqui, ali, além, sobre, sob, através, adiante, atrás. Por quê não fazê-lo? Por quê não experimentar tal possibilidade?
Aqui já não se trata mais de arte figurativa, abstrata, geométrica, simplesmente. Mas de formas híbridas que atuam no tempo e espaço, tanto quanto no mundo das idéias. Já não há mais ideais, mas movimentos que tornam possível o exercício da vontade, do desejo, da subjetividade. São colagens de materiais existentes, assemblages de materiais pré-existentes, idéias que circulam entre o mundo de generalidades dos shopping centers, mídias diversas como tevês e jornais, internet, etc., feitas de histórias em quadrinhos, grafites em muros, Hip Hop, RAP, caos urbano. As fronteiras entre a arte culta, erudita e popular vão se tornando cada vez menos óbvias.
Não é à toa que os burocratas de plantão procuram preservar no formol suas velhas certezas. Sofrem de horror por uma arte que não se deixa acomodar em seus arquivos de fichas. Uma ameaça que tentam calar no exercício de suas autoridades, do alto do cargo que ocupam. Alegam questões de ordem, segurança, hierarquia, leis de mercado e de compreensão linear dos discursos, tentando vetá-las. Felizmente iniciativas tanto do poder público, quanto extra oficiais, que vão de diretorias de museus a associações entre artistas tem revertido este quadro pelo menos desde os anos 60, sendo que hoje, cada vez mais, este novo pensamento ganha terreno. Fronteiras e limites são apenas convenções e nada mais. Como diria Nietzsche, esta é uma arte para os espíritos livres. Para todos e para ninguém. Assim falou Zaratustra.
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