Uma boa entrevista depende muito mais da criatividade e poder de persuasão do entrevistador do que de seus convidados. São as perguntas e questionamentos pertinentes que irão ou não chamar a atenção do público. Na tevê aberta atual, Jô Soares, da Globo, e Marília Gabriela, do SBT, ainda são os nomes "de ponta" quando o assunto é programas de entrevista. Não muito atrás, em pouco tempo, Danilo Gentili conseguiu seu espaço graças à "pegada" mais cômica do "Agora É Tarde", da Band.
No entanto, para quem está cansado do "jogo rápido" do "De Frente com Gabi" ou do "Beijo do Gordo!" do "Programa do Jô", e não vê muita graça em Danilo e sua trupe, a solução é partir para a tevê por assinatura. Com finanças bem mais modestas, os canais pagos valem-se do baixo custo de produção e da versatilidade dos talk shows para reinventarem o formato. E no quesito inovação, chama a atenção a variedade de programas do tipo na grade do Canal Brasil.
Com resultados oscilantes, é possível ver uma infinidade de pautas e convidados em abordagens totalmente diferentes. A receita é simples: apresentadores inusitados, cenário "kitsch" sem muita produção, papo descompromissado e um entrevistado a fim de falar sem medo dos "cortes" e da visibilidade da tevê aberta.
Com sua recém-lançada segunda temporada, "O Bagulho é Doido", apresentado pelo rapper, ator, escritor e agitador cultural MV Bill, funciona como uma proposta mais "popular" à programação elitizada e "cabeça" do canal. Bill se vale de sua origem humilde e forte discurso político em prol das minorias para fazer um programa panfletário sobre temas como segurança pública, racismo e educação.
De forma mais conceitual, Lázaro Ramos quer mostrar o homem por trás do ator no "Espelho". No entanto, com entrevistados que, em sua maioria, são seus amigos – casos de Adriana Esteves e Patrícia Pillar –, por visível falta de experiência, Lázaro perde o senso crítico e leva o programa a um tom exageradamente "chapa-branca".
Além de Lázaro, outro ator que também "joga confete" na classe é José Wilker no "Palco e Plateia". Pelo cenário e tom das entrevistas, a produção mostra-se uma cópia "tupiniquim" do "Inside The Actors Studio", programa da tevê americana apresentado por James Lipton.
A programação do canal também investe na porção entrevistador de artistas da música, como Moska no "Zoombido", Roberta Sá no "Faixa Musical" e o ex-baterista dos Titãs, Charles Gavin, no "O Som do Vinil". A cantora fica no "tatibitati" da canção, já Moska e Gavin mostram-se mais arrojados e experimentais. Em seus programas, o cantor disseca o processo de composição, enquanto o instrumentista vasculha os bastidores de álbuns clássicos da música popular brasileira.
Entre tantas opções de entrevistas, o canal se sai bem mesmo quando foge totalmente de papos óbvios. Nessa esfera, "Com Frescura", comandado por Rogéria, e "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", sobressaem não apenas pela estranheza, mas por terem no comando duas figuras que são instigantes por si só. Até a mais simples pergunta de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, torna-se, no mínimo, assustadora por conta de seu gestual, figurino e voz.
Na contramão do terror do "homem da capa preta", Rogéria é, simplesmente, ela mesma em todo exagero e "cafonice" que lhe é peculiar. Entrevistando, a artista ganha ao se expor tanto quanto seu convidado, mas sem esquecer que o centro das atenções deve ser o entrevistado.

Serviço:
"De Frente com Gabi" - Domingos, à 0h, no SBT.
"Agora É Tarde" – De terça a sexta, à 0h, na Band.
"Programa do Jô" – De segunda a sexta, à 0h40, na Globo.
"O Bagulho é Doido" - De segunda a sexta, às 23h30, no Canal Brasil.
"Espelho" - Segundas, às 21h30, no Canal Brasil.
"Palco e Plateia" - Terças, às 21h30, no Canal Brasil.
"Zoombido" - Quintas, às 21h30, no Canal Brasil.
"Faixa Musical" - Sábados e domingos, às 17h, no Canal Brasil.
"O Som do Vinil" - Sextas, às 21h30, no Canal Brasil.
"Com Frescura" - Quartas, à 0h, no Canal Brasil.
"O Estranho Mundo de Zé do Caixão" - Sextas, à 0h, no Canal Brasil.

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